Hulk – por João Henrique
Eram outros tempos. Nossa casa ainda recebia visitas e, antes da sucessão interminável de gatos que apareceram depois, tínhamos um cachorro. Hulk era o pitbull…
Eram outros tempos. Nossa casa ainda recebia visitas e, antes da sucessão interminável de gatos que apareceram depois, tínhamos um cachorro. Hulk era o pitbull…
- por Douglas Lobo “Soraia se debatia. Arranhava os antebraços dele com as unhas. Através da água, Bernardo via o rosto dela se contrair, os olhos arregalados. Só a perdia de vista, por alguns segundos, quando uma onda quebrava sobre ele, os sulcos de espuma remanescentes a lhe dificultarem a visão. ”
- por Marcel Novaes “A imagem na moeda era o rosto de um homem, de perfil, com algumas palavras em volta. Com um movimento da mão, ele fez a moeda virar. Do outro lado, havia um número 5 e a imagem de uma águia, pousada sobre uma coisa redonda. Dentro da coisa redonda, uma suástica. Em volta disso, as letras pareciam ser Deutsches Reich 1938”
No dia seguinte, chegaram na igreja discretamente. Jonas, de camisa social cinza, topete penteado para trás disfarçando a calvície, calça de linho e sapato bico fino; Eunice, com cabelos escorridos chegando nos ombros, vestido longo até abaixo dos joelhos e Bíblia na mão; Renato, o garoto, andava meio corcunda, torto, cabelo desgrenhado, olhando para baixo, tímido — os três entravam naquela pequena casa em que uma placa grande indicava: "Igreja dos Cavaleiros de Fogo de Jesus Cristo Nosso Senhor".
Ainda me lembro do dia em que folheei pela primeira vez as páginas de um livro cuja capa desfazia-se em resíduos vermelhos — era a tinta que se desprendia do tecido, manchando minhas mãos. À época, eu tinha treze anos, a vida era mais simples e o tempo parecia alongar-se indefinidamente.
- Entrevista concedida a Matheus Bensabat "Karleno Bocarro nasceu em Fortaleza e mudou-se, aos 23 anos, para a Alemanha, como bolsista do governo Alemão, e formou-se em História, Ciência da Cultura e Filosofia na Universidade Humboldt de Berlim. Com muito empenho, Karleno iniciou um mestrado em Filosofia, com o tema “A Vontade de Criar – Um Estudo da Estética de Friedrich Nietzsche"...
- Gabriel Coelho Teixeira A lua vai alta. Abaixo, uma rua paira deserta. A madrugada avança. Na via pública as lâmpadas são escassas. Os halos de luz provenientes da queima do querosene são fracos, impotentes contra a força opressiva da noite. Em vez de se oporem à escuridão, incorporam-se nela, evocando ares fantasmagóricos.
-por Lucas Petry Bender Todas as histórias de amor são parecidas, mas as histórias tolstoianas são de amor são a modo próprio. Ler ou reler Anna Kariênina (publicado originalmente em 1878, aqui citado na edição de 2021 da Editora 34, traduzida por Irineu Franco Perpetuo) é uma dessas grandes descobertas da vida, e embora muito já tenha sido dito a respeito, é sempre possível renovar o entusiasmo diante de um clássico dessa magnitude.
- por Matheus Bensabat Quando Heloísa completou a última volta na coroa, percebeu que a filha se encaminhava para a sala. Deixou o bastidor sobre a mesa e guardou os carretéis na caixa de costura, mirando-a. Amanda dirigiu-lhe um olhar pesaroso e culpado, desviando-o em seguida, encostando as costas no batente da porta. As olheiras destacavam-se no rosto alvo, e os passos, curtos e cadenciados, mostravam-na acuada. A mãe deteve-se, primeiro, nos machucados da mão, que ela não conseguira ocultar, e pelo olhar da filha, entendeu tudo. Heloísa começava a sofrer.
- por Andre Klojda "Aproximava-se o horário do fim do expediente, e Maria ainda não conseguira parar um momento sequer naquele dia: “Venha aqui”, “Vá acolá”, “Ajude-me um instante!”, suas colegas pediam. Com comovente solicitude, sem palavra agressiva ou mau pensamento, Maria atendia a cada uma."