Soraia – por Douglas Lobo

- por Douglas Lobo “Soraia se debatia. Arranhava os antebraços dele com as unhas. Através da água, Bernardo via o rosto dela se contrair, os olhos arregalados. Só a perdia de vista, por alguns segundos, quando uma onda quebrava sobre ele, os sulcos de espuma remanescentes a lhe dificultarem a visão. ”

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A Ilha de Imaginação (Atlas de Nuvens)

-por Rodrigo Duarte Garcia "E é precisamente isso o que faz David Mitchell em Atlas de Nuvens, por fim lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em edição irretocável e uma tradução primorosa de Paulo Henriques Britto. Mitchell é uma ilha de lucidez imaginativa no meio desse oceano ordinário – embora às vezes talentoso – que parece ter se tornado a literatura atual."

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Morte Térmica

- por Marcel Novaes “A imagem na moeda era o rosto de um homem, de perfil, com algumas palavras em volta. Com um movimento da mão, ele fez a moeda virar. Do outro lado, havia um número 5 e a imagem de uma águia, pousada sobre uma coisa redonda. Dentro da coisa redonda, uma suástica. Em volta disso, as letras pareciam ser Deutsches Reich 1938”

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A solidão da epifania: “Pudor e Dignidade”, de Dag Solstad

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.

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A Cura – por Matheus Araújo

No dia seguinte, chegaram na igreja discretamente. Jonas, de camisa social cinza, topete penteado para trás disfarçando a calvície, calça de linho e sapato bico fino; Eunice, com cabelos escorridos chegando nos ombros, vestido longo até abaixo dos joelhos e Bíblia na mão; Renato, o garoto, andava meio corcunda, torto, cabelo desgrenhado, olhando para baixo, tímido — os três entravam naquela pequena casa em que uma placa grande indicava: "Igreja dos Cavaleiros de Fogo de Jesus Cristo Nosso Senhor". 

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 Entrevista com Karleno Bocarro

- Entrevista concedida a Matheus Bensabat "Karleno Bocarro nasceu em Fortaleza e mudou-se, aos 23 anos, para a Alemanha, como bolsista do governo Alemão, e formou-se em História, Ciência da Cultura e Filosofia na Universidade Humboldt de Berlim. Com muito empenho, Karleno iniciou um mestrado em Filosofia, com o tema “A Vontade de Criar – Um Estudo da Estética de Friedrich Nietzsche"...

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O “Totolino” de Alexandre Soares Silva

-Milton Gustavo Vasconcelos "Toda essa maluquice lúcida me conduziu a alguns pensamentos desconfortáveis como: “Será que eu também tenho um Totolino?” “Quem será o psicopata que, com olhinhos cheios de ternura e mãozinhas gordas sujas de sangue e tecido humano, conquista minha condescendência, simpatia e aprovação?” Não tenho as respostas. Nem pretendo cansar o leitor com meus palpites. Assim deve ser a literatura de verdade, ou a "grande literatura": formula perguntas que só mesmo a vida — e não os viventes — pode responder.

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