As Flores do Mal de Gotham City

É nessa perspectiva que mais nos impressionam filmes como Coringa (“Joker”, 2019, dirigido por Todd Phillips) e Batman (“The Batman”, 2022, direção de Matt Reeves), o primeiro com seu lirismo sanguinário, o segundo com seu fascínio pelas trevas, ambos protagonizados por anjos decaídos e vingativos, como flores que desabrocham na escuridão e na sujeira, nutridos pelas enfermidades de Gotham City. É sobretudo por mérito da direção de arte, da cenografia e da trilha sonora que a obscura beleza do submundo de Gotham nos conquista,

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A transgressão como símbolo da ação divina

-por Matheus Bazzo Em uma cena brilhante de “Black Coal Thin Ice”, o diretor chinês Diao Yinan mostra uma passagem de tempo através de um recurso cinematográfico surpreendente. No momento em que o filme pula cinco anos em sua narrativa, o diretor opta por mostrar essa mudança de tempo apresentando os personagens atravessando um túnel em seu carro. Ao passar por ali, há uma alteração climática (antes, estavam no verão; e, agora, o chão está coberto de neve), e eles veem um acidente de moto do outro lado. O homem acidentado é o mesmo homem que está no carro. O espectador é impactado com um salto de tempo inesperado e apresentado de forma brilhante.

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Este inominado espetáculo: a arte de Nigel van Wieck

- por Pedro Rocha Souza Talvez o mais cativante na obra de Van Wieck seja o fato de que toda ela é feita da mesma matéria que nossa vida; que ele lance um olhar àquilo que já é por todos conhecido, àquilo que talvez nenhum de nós se atente em meio aos nossos afazeres diários, e que disto ele consiga tirar tanta beleza.

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A Ilha de Imaginação (Atlas de Nuvens)

-por Rodrigo Duarte Garcia "E é precisamente isso o que faz David Mitchell em Atlas de Nuvens, por fim lançado no Brasil pela Companhia das Letras, em edição irretocável e uma tradução primorosa de Paulo Henriques Britto. Mitchell é uma ilha de lucidez imaginativa no meio desse oceano ordinário – embora às vezes talentoso – que parece ter se tornado a literatura atual."

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A solidão da epifania: “Pudor e Dignidade”, de Dag Solstad

Sem alarde e com tímida divulgação, o mercado editorial brasileiro recebe pela segunda vez uma obra de Dag Solstad (nascido em 1941), considerado um dos mais notáveis ficcionistas noruegueses da atualidade: Pudor e Dignidade (“Genanse og verdighet”, editora Numa, tradução direto do norueguês por Grete Skevik), publicado originalmente em 1994. Suas cerca de 150 páginas podem ser lidas de uma só vez, graças à prosa fluida e percuciente, embora a assimilação pelo leitor não seja tão fácil e ligeira; é com a inquietação, o desconsolo e o amargor de uma crise do protagonista que veremos toda a sua vida ser revista e reavaliada a partir de um momento que parecia ser, a princípio, de iluminação e epifania, para logo se precipitar num abismo de ira, frustração e impotência.

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O “Totolino” de Alexandre Soares Silva

-Milton Gustavo Vasconcelos "Toda essa maluquice lúcida me conduziu a alguns pensamentos desconfortáveis como: “Será que eu também tenho um Totolino?” “Quem será o psicopata que, com olhinhos cheios de ternura e mãozinhas gordas sujas de sangue e tecido humano, conquista minha condescendência, simpatia e aprovação?” Não tenho as respostas. Nem pretendo cansar o leitor com meus palpites. Assim deve ser a literatura de verdade, ou a "grande literatura": formula perguntas que só mesmo a vida — e não os viventes — pode responder.

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“Meu nome é Legião” – um ensaio sobre Coringa (2019)

- por Pedro de Almendra "Nenhum desses problemas, acredito, ocupa um lugar realmente central no filme e aparecem, por vezes, de modo um tanto caricatural, beirando o substituível, o descartável: ratos gigantes, risos involuntários, elite cruel, etc. O lugar que ocupam aqui é, antes, o de moldura; servem de ocasião e não de motor ao drama.

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