O Escritor, entre Herodes e o Profeta – uma lição de T.S. Eliot, Fujimura e Flannery O’Connor

- por Hugo Langone E este mistério jaz na matéria mais bruta que pode haver: do cotidiano à baixeza de um rei embriagado. “A ficção”, confirma a senhorita O’Connor, “diz respeito a tudo o que é humano, e nós somos feitos de pó; e, se ficar empoeirado é algo que lhe desperta desprezo, você não deveria tentar escrever ficção. Não se trata de um ofício grandioso o suficiente”. Pois o artista conserva precisamente a loucura do santo: a de estar metido na poeira de si, dos outros, do mundo, entrevendo nesta secura, nesta fraqueza, uma presença que talvez ele não saiba como, mas acaba por insinuar.

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Sonhei que tu conhecias as palavras que Deus falou pelo Anjo – poemas de Fernanda Boaventura

Sonhei que tu conhecias as palavras que Deus falou pelo Anjo. Ao percorrermos a ontofania da memória, Onde guardamos o ramo abençoado? Após a primeira ressurreição, Terás subido ao leito carregando a terra negra nas tuas vestes.

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A ficção assume o controle: “Ioga”(2023) de Emmanuel Carrère

por Lucas Petry Bender -- "É impossível calar a voz da consciência; na melhor das hipóteses, pode-se dialogar com ela – e que melhor maneira de fazer isso senão através da leitura e da escrita? Em Ioga (“Yoga”, trad. Mariana Delfini, ed. Alfaguara, 2023), Emmanuel Carrère parte do propósito de escrever um breve manual da prática da meditação e da ioga, para terminar envolvido na rede de narrativas que são tecidas à medida em que escreve, passando, no trajeto, por uma profunda crise depressiva.

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Descrição dos Sinais de Dom Sebastião Primeiro – por David Carvalho

"Depois ouve o Freixo de Espada à Cinta tecer uma loa às virtudes guerreiras desses antigos Reys portugueses que sonhavam não estarem acabados os tempos de ouro da cavalaria, quando uma dúzia de corcéis montados em tiro arrepiava o esqueleto dos vanguardistas de qualquer hoste estrangeira"

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Everybody hates Itamar — notas sobre Torto arado

"Estou começando a ler Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (Leya, 2019), que se inicia com uma recordação de infância na qual as irmãs Bibiana e Belonísia, xeretando um baú da avó, talvez uma praticante de macumba ou adepta do candomblé — não sei bem, pois aparecem, por vezes, expressões generalistas como “feiticeiros”, “feiticeira” e “suas crenças” —,

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Orwell e as Máquinas

Escritor difícil de se fazer caber em uma “caixinha”, socialista crítico do stalinismo, Orwell é muito mais conhecido pela sua ficção do que pelos seus ensaios e artigos. Porém, Viagem ao cais de Wigan, livro encomendado pelo Left Book Club inglês, serve de perfeito exemplo dessa natureza de Orwell, intragável aos lados da “guerra cultural”. Ao mesmo tempo profissão de fé no socia

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Mordomos e Patrões – P. G. Wodehouse

(Tradução de Ronaldo B. Giovannetti) "Pelham Grenville Wodehouse (1881-1975) foi certamente um dos maiores escritores cômicos da literatura inglesa. Criador da dupla Bertie Wooster e seu sagaz mordomo Jeeves, dentre inúmeros outros personagens. Escreveu pouca não-ficção. Entre 1914 e 1923, a revista americana Vanity Fair encomendou a ele alguns artigos e ensaios, que foram posteriormente reescritos para publicação no livro Louder and Funnier. No ensaio cômico abaixo, que faz parte dessa coletânea, Wodehouse trata da sua predileção por mordomos."

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