Inteiramente só e inteiramente cercado por outros: os livros da família Glass
“Um cordão de isolamento formado por estantes que iam até a altura da cintura cercava três das paredes, com prateleiras lotadas e literalmente encurvadas com…
“Um cordão de isolamento formado por estantes que iam até a altura da cintura cercava três das paredes, com prateleiras lotadas e literalmente encurvadas com…
- por Lucas Petry Bender "Em Serotonina (Ed. Alfaguara, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), o próprio título já indica que o efeito dos antidepressivos assume um tamanho protagonismo na vida hodierna, que nos resta questionar o que sobrou da luta do homem consigo mesmo e com o mundo; questionar, a partir do que a ficção de Houellebecq revela sobre a nossa condição, o que resta de humano no nó inextricável de cultura e biologia que nos define."
Para mim foi uma experiência enriquecedora ler O pavão bizarro (ed. Patuá, 2014), o livro de estreia de Emmanuel Santiago, no qual revela algo do parnasianismo que muitos não enxergam, ou fingem não perceber, que é uma vida, perdoem-me o clichê, pulsante, um verdadeiro farol para a modernidade,
"Comemoramos cem anos do poema The Waste Land e a obra continua causando a mesma reação de assombro e desconforto desde que foi publicada pela primeira vez. Trechos em 7 idiomas distintos, alusões a dezenas de obras literárias, uma impressão de falta de unidade e um tom sombrio e pessimista. Como podemos nos aproximar desta obra e ter uma experiência de leitura enriquecedora sem nos perdermos no labirinto quase infinito de referências do poema? Algumas notas de um leitor não-erudito para outro."
- por João Silva Uma grande obra de arte tem a capacidade de direcionar (ou redirecionar) a nossa atenção para o que estava antes escondido de nós. Daí a famosa proclamação de Robert Delaunay segundo a qual “o impressionismo é o nascimento da luz”. É claro que Monet e Renoir não criaram a luz (nem mesmo o demiurgo de Platão foi capaz de tal feito). Mas eles “ensinaram-nos” a ver a luz, eles ofereceram-nos uma nova perspetiva sobre as experiências mais mundanas e coloquiais. As suas pinceladas curtas, rápidas e grosseiras conseguiram captar detalhes da realidade que normalmente sequer consideramos, retratando uma nova sensação de movimento e espontaneidade, renovando assim o que antes era percebido como meramente corriqueiro.
-por Ana Júlia Galvan Como é possível (...) que uma mesma música dê vazão a tantos sentimentos diferentes e a sensações tão diversas? (...) Em que âmbito da consciência são gestadas as ideias, e como as mesmas palavras podem deixar transparecer tantas possibilidades? Haverá uma interpretação certa?
- tradução por Lucas Lima "Enquanto outros gigantes declinam, arrastados ao crepúsculo pela misteriosa ressaca dos tempos, Dostoiévski continua no topo. Talvez seja excessivo o entusiasmo recente por sua obra, e quanto a esta eu prefiro reservar meu julgamento para uma hora mais tranqüila, mas, seja como for, não há dúvida de que o russo foi salvo do naufrágio geral por que passou o romance do século passado e vem passando o do atual. "
-por Jessé de Almeida Primo A morte, como todos já sabem, é incontornável. Como diria a sabedoria popular, para morrer basta estar vivo. É um desafio à inteligência humana, a todos os seus artifícios e já está anunciada no pó de onde viemos. O aspecto reiterativo deste soneto de Igor Barbosa, um verdadeiro triunfo rítmico-sonoro na poesia do pensamento, é uma ilustração perfeita dessa inexorabilidade.
-por Lucas Petry Bender Todas as histórias de amor são parecidas, mas as histórias tolstoianas são de amor são a modo próprio. Ler ou reler Anna Kariênina (publicado originalmente em 1878, aqui citado na edição de 2021 da Editora 34, traduzida por Irineu Franco Perpetuo) é uma dessas grandes descobertas da vida, e embora muito já tenha sido dito a respeito, é sempre possível renovar o entusiasmo diante de um clássico dessa magnitude.
- por Jessé de Almeida Primo "Atraente ao público mais jovem, mas sem fazer concessão a uma sintaxe preguiçosa, medrosa, opaca, que se passa por uma forma de expressão descolada, relax, de gente como a gente... Enfim, um romance dirigido ao público infanto-juvenil, mas escrito por homem, como, aliás, deveria ser regra para quem se entrega a essa tarefa.