Seu Arlindo – por Gabriel Coelho Teixeira

Foi no deslocamento de alguns poucos minutos de bonde elétrico, num trecho da Avenida Rio Branco, que me deparei com a figura de Seu Arlindo. Era início de tarde, faltava pouco pro meio-dia, o calor do Sol ainda era agradável. Tomei o bonde na Cinelândia, querendo apenas evitar a caminhada até a Presidente Vargas, onde eu desceria, três pontos à frente. Sentei próximo a uma das entradas, no canto da janela, o assento ao lado ficando vago.

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As Flores do Mal de Gotham City

É nessa perspectiva que mais nos impressionam filmes como Coringa (“Joker”, 2019, dirigido por Todd Phillips) e Batman (“The Batman”, 2022, direção de Matt Reeves), o primeiro com seu lirismo sanguinário, o segundo com seu fascínio pelas trevas, ambos protagonizados por anjos decaídos e vingativos, como flores que desabrocham na escuridão e na sujeira, nutridos pelas enfermidades de Gotham City. É sobretudo por mérito da direção de arte, da cenografia e da trilha sonora que a obscura beleza do submundo de Gotham nos conquista,

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A transgressão como símbolo da ação divina

-por Matheus Bazzo Em uma cena brilhante de “Black Coal Thin Ice”, o diretor chinês Diao Yinan mostra uma passagem de tempo através de um recurso cinematográfico surpreendente. No momento em que o filme pula cinco anos em sua narrativa, o diretor opta por mostrar essa mudança de tempo apresentando os personagens atravessando um túnel em seu carro. Ao passar por ali, há uma alteração climática (antes, estavam no verão; e, agora, o chão está coberto de neve), e eles veem um acidente de moto do outro lado. O homem acidentado é o mesmo homem que está no carro. O espectador é impactado com um salto de tempo inesperado e apresentado de forma brilhante.

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A Cura – por Matheus Araújo

No dia seguinte, chegaram na igreja discretamente. Jonas, de camisa social cinza, topete penteado para trás disfarçando a calvície, calça de linho e sapato bico fino; Eunice, com cabelos escorridos chegando nos ombros, vestido longo até abaixo dos joelhos e Bíblia na mão; Renato, o garoto, andava meio corcunda, torto, cabelo desgrenhado, olhando para baixo, tímido — os três entravam naquela pequena casa em que uma placa grande indicava: "Igreja dos Cavaleiros de Fogo de Jesus Cristo Nosso Senhor". 

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Não há consolo maior que o desconsolo: “Serotonina”, de Michel Houellebecq

- por Lucas Petry Bender "Em Serotonina (Ed. Alfaguara, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht), o próprio título já indica que o efeito dos antidepressivos assume um tamanho protagonismo na vida hodierna, que nos resta questionar o que sobrou da luta do homem consigo mesmo e com o mundo; questionar, a partir do que a ficção de Houellebecq revela sobre a nossa condição, o que resta de humano no nó inextricável de cultura e biologia que nos define."

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Matrícula

- por Mariel Reis "A minha escola primária era acanhada, com um retalho de pátio. O uniforme pinicava e lá certamente havia uma coisa errada: todos pareciam deprimidos. "

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