Do coração traidor à contemplação amorosa: “A trilogia do antes”, de Richard Linklater

Um ensaio sobre o tempo nos filmes “Antes do amanhecer”, “Antes do pôr-do-sol” e “Antes da meia-noite” – por Leandro Costa.


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E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

Drummond

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Nos últimos momentos de Antes do Amanhecer (Before Sunrise, 1995), Richard Linklater mostra-nos novamente todos os lugares por onde Jesse e Céline passaram durante o filme: a ponte, a margem do rio, as ruas, os parques, o cemitério.

Agora os dois personagens estão separados; cada um seguirá um destino diferente, e a recordação visual do cenário com o qual eles interagiram possui um efeito ambíguo: ao mesmo tempo que provoca uma sensação de ternura, também provoca um sentimento de melancolia, pois eles não estão mais ali. Como no poema que Jesse recita para Céline (a balada As I walked out one Evening, de W. H. Auden), “os amantes já partiram”. 1 O poema de Auden pode ser lido na íntegra aqui. Inclusive, foi dessa belíssima tradução de Nelson Ascher (cf. link) que retirei o título desse texto. O original de Auden diz “you shall love your crooked neighbour/with your crooked heart”. Embora a solução adotada por Ascher pareça orientar-se pela precisão rímica (“assustador”/ “traidor”), a ideia de um “coração traidor” descreve com felicidade a imperfeição da natureza humana, por isso resolvi adotá-la.

Mas essa sequência de imagens também demonstra o poder evocativo que possuem a arte do cinema e a memória humana, pois, se contemplássemos esses lugares no início do filme, eles serviriam apenas como uma introdução contextual. Agora, no entanto, o espaço ficara marcado com a presença dos personagens — com as suas palavras, seus sentimentos e seus gestos — e, ao fazer com que os relembremos, Linklater está mostrando a capacidade da memória de fazer com que os instantes se prolonguem para além do tempo.

Embora os personagens já não estejam mais nesses espaços, de alguma forma é como se ainda estivessem, pois é a sua lembrança que faz com que o cenário torne-se significativo para o espectador. 

Os cenários por onde Jesse e Céline passaram. Espaços ‘preenchidos’ pela ausência.

Logo depois dessas imagens, vemos Jesse contemplando a paisagem pela janela do trem, lembrando justamente do que vivera no cenário que acabamos de ver. No mesmo instante, em outro espaço, Céline repete o mesmo gesto. Aí, percebemos que as imagens anteriores serviram para criar uma identificação ainda maior com o espectador: elas eram projeções da memória dos personagens. Uma memória que, antes do fade final, acabara de ser compartilhada conosco.

A composição dos quadros (com os dois atores orientados para direções diferentes) e o movimento do trem ressaltam a ideia da transitoriedade. Porém, o gesto da lembrança, a saudade, situa-os em outra dimensão, como se o passado e o presente fossem simultâneos.


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Num momento anterior do filme, houve o seguinte diálogo entre os dois amantes:

Jesse: — Parece que estamos num mundo de sonhos, sabe?
Céline: — Sim. 
Parece que esse momento é só nosso. Nós o criamos. Você entrou nos meus sonhos. E eu, nos teus.
Jesse: — O mais legal é que tudo isso, 
todo esse tempo que passamos juntos, não era para ter existido.
Céline: — Sim. Talvez seja por isso que pareça algo de outro mundo.

À primeira vista, a fala de Céline destacada acima parece reproduzir um subjetivismo extremo (aquela ideia kantiana de que o mundo só existe porque o imaginamos), porém, a ideia do tempo compartilhado e a percepção da singularidade do instante (intrinsecamente ligadas à faculdade da memória) denunciam a aceitação de uma realidade externa, que é confirmada pela fala de Jesse, quando ele demonstra que o funcionamento do mundo não depende deles.

Os dois personagens estão apaixonados um pelo outro. Por isso, a ideia de “criar o instante” está associada ao desejo e à aceitação de que os momentos que viveram juntos sejam exatamente como foram. O que nos leva ao tema principal deste ensaio (o tempo) e, consequentemente, à ideia de eternidade, como veremos adiante.

A mentira do tempo

Ao conceber um modelo conceitual para a eternidade, o escritor Jorge Luis Borges relacionou-a ao desejo, à saudade e, logicamente, à memória. No ensaio História da Eternidade, ele escreveu:

[O modelo da unânime eternidade é a saudade]. O homem enternecido e exilado que relembra possibilidades felizes vê-as sub specie aeternitatis, totalmente deslembrado de que a execução de uma delas exclui ou posterga as outras. Na paixão, a lembrança tende ao intemporal. Concentramos as alegrias de um passado numa única imagem; os poentes variadamente rubros que contemplo todas as tardes hão de ser, na recordação, um único poente. O mesmo acontece com a previsão: as esperanças mais incompatíveis podem conviver sem dificuldade. Em outras palavras: o estilo do desejo é a eternidade. 2 Jorge Luis Borges. História da eternidade. (Trad. Heloisa Jahn). São Paulo, Companhia das Letras, 2010, p. 30–31.  

É a percepção de que “na paixão, a lembrança tende ao intemporal” que provoca o efeito de prolongamento do tempo na última sequência de Antes do Amanhecer.

Tal percepção reaparecerá nos outros dois filmes, dialogando, sempre, com a consciência da transitoriedade do tempo. Considerada a história dos dois personagens como um todo, percebemos que há uma relação complementar entre o sentimento de eternidade e a noção da precariedade de todos os momentos 3 Em ensaio a respeito do filme Arca Russa, falo a respeito da relação entre “o sentimento de eternidade e a noção da precariedade da sua posse”, a partir do texto A proibição da realidade, de Olavo de Carvalho. Nesse último texto, encontramos a seguinte afirmação: “Sob uma variedade inesgotável de simbolizações, o senso da eternidade e, em oposição complementar a ele, a consciência da precariedade da sua posse são as mais velhas e infalíveis constantes do espírito humano”. Em certa medida, a série de Linklater também reproduz essas duas constantes.  . Relação que está expressa nos títulos dos filmes, os quais transmitem uma sensação de urgência, mas que, vistos em conjunto, descrevem um ciclo completo e permanente, no qual as fases do dia assemelham-se às diferentes fases da vida dos indivíduos.

O poeta brasileiro Marco Catalão possui um livro cujo título ilustra muito bem essa relação, chamado Antes de amanhã. Gosto da expressão porque, ao mesmo tempo que ela ressalta a transitoriedade do tempo, ela é uma afirmação da importância do presente. Céline compreende isso, quando, no primeiro filme, ela diz: “Tudo é tão efêmero. É por isso que cada momento que passamos juntos é importante”.

Contudo, para além do sentimento do efêmero há a capacidade de anulação do tempo, a “tendência ao intemporal”, que retornará com bastante força em Antes do pôr-do-sol (Before Sunset, 2004).

Linklater abre o filme com uma sequência muito parecida com a qual ele concluíra Antes do Amanhecer. Na banda sonora, ouvimos Julie Delpy cantando a canção An ocean apart, que tem como temas o amor, o tempo, a distância e o presente 4 A canção pode ser ouvida aqui: An ocean apart. Agora, contudo, a sequência das imagens não funciona como uma recordação dos momentos vividos, mas como uma antecipação. Linklater mostra a ordem reversa de todos os espaços. Primeiro vemos o lugar onde o enredo será concluído, depois passamos pelo percurso que ainda será realizado, até chegarmos ao espaço em que o enredo se inicia: a livraria Shakespeare and Company, onde Jesse está dando uma entrevista.

Um insuspeito flashforward abre o filme, criando a ambientação e “expandindo o tempo”.


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Aqui, a sequência funciona no começo do filme porque, antes de assisti-lo, já possuímos as informações contextuais de que necessitamos e, além disso, conhecemos a história anterior de Jesse e de Céline.

Antes de entrar na livraria, Linklater revela-nos um detalhe muito significativo: o livro que Jesse escrevera (o qual, logo descobriremos, narra o encontro do primeiro filme) chama-se This time. Título esse que remete diretamente à questão do tempo, que também é conteúdo da entrevista que o personagem está concedendo.

Num detalhe que depois não será mais comentado, mas que não deixa de ser significativo, Linklater revela o título do livro de Jesse: This time (este tempo).


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Após algumas perguntas a respeito da vida e da arte, de detalhes que levaram Jesse a escrever o livro e outras coisas parecidas, os jornalistas perguntam ao escritor qual será o seu próximo livro. A resposta de Jesse a essa pergunta é essencial para entendermos a reflexão sobre o tempo que está presente no filme(a citação é longa, mas é necessária), ele responde:

Eu sempre quis escrever um livro onde tudo se passa no decorrer de uma canção. Tudo levaria de três a quatro minutos. A história seria sobre um cara que está completamente deprimido. Ele sonhava em ser amante, aventureiro, atravessar a América do Sul de moto. Em vez disso, ele está sentado à mesa de mármore comendo lagosta. Tem um bom emprego e uma bela mulher. Tem tudo de que precisa. Mas isso não importa. Ele quer lutar por algo que tenha significado. A felicidade é realizar algo, certo? Não é ter tudo o que você quer… Então, quando ele está lá, sentado, a filha dele de 5 anos sobe na mesa. Ele sabe que ela deve descer ou poderá se machucar. Mas ela está com um vestido de verão dançando uma música. Ele olha para ela e, de repente, volta a ter 16 anos. E a sua namorada do colegial o está deixando em casa. Eles acabaram de perder a virgindade, ela o ama, e a mesma música está tocando no rádio do carro. Ela sobe no capô do carro e começa a dançar. Ele fica preocupado com ela. Ela é linda, tem a mesma expressão facial que a filha dele. Talvez por isso goste dela. Pois bem, ele sabe que não está se lembrando daquilo: ele está vivendo os dois momentos simultaneamente. Por um instante, a vida dele se desdobra. Fica óbvio para ele que o tempo é uma mentira. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Um momento contém outro que contém outro. Tudo acontece simultaneamente.

Da mesma maneira que na última sequência de Antes do Amanhecer, Linklater faz com que compartilhemos da experiência dos personagens. Enquanto Jesse está expondo a sua ideia, justamente quando ele diz que o seu personagem está vivendo os dois momentos simultaneamente, há cortes para algumas cenas do primeiro filme. De modo bem explícito, a arte do cinema torna possível que também vivamos, simultaneamente, os dois momentos.

A conclusão magistral da introdução do filme se dá quando, no instante em que Jesse diz que “o tempo é uma mentira”, a câmera revela Céline num canto da livraria, assistindo à entrevista (portanto, compartilhando daquela memória). A sua presença nos é revelada no mesmo instante em que ele a percebe. O passado e o presente. Expansão e simultaneidade. Como a vida de seu personagem, a vida de Jesse também se desdobra.

“A vida se desdobra”: uma confluência temporal reúne novamente os dois amantes.


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Além disso, o filme que inicia com essa ideia da simultaneidade de todos os instantes termina com Céline imitando uma canção chamada Just in time, da cantora Nina Simone . Música que funciona como um contraponto à canção que abrira o filme. Em An ocean apart, a letra dizia que “o tempo passa, as pessoas choram e tudo se vai tão rápido” (“time goes by and people cry and everything goes too fast”) e, numa contaminação da própria natureza, “logo será noite ao meio-dia” (“soon it’ll be night at noon”) . Em Just in time 5 Cf. a canção aqui: Just in timeao contrário, a letra diz que “você me encontrou bem a tempo e transformou minhas noites solitárias” (“you found just in time and changed my lonely nights”). Essa contradição entre as canções é mais um elemento da dialética entre o permanente e o efêmero.

Entretanto, quando comparamos o final de Antes do Amanhecer com início de Antes do Pôr do Sol, vemos que a inversão temporal na abertura do segundo filme serve, exatamente, para expressar a expansão do tempo, a tendência ao atemporal presente na imaginação dos apaixonados.

Aí, a cumplicidade presente na cena final — que viria a se tornar uma das mais famosas do cinema contemporâneo — manifesta, mesmo, um desprezo pelo tempo. Jesse precisa cumprir prazos. Ele tem outra vida; uma esposa, um filho. Uma escala a ser cumprida, horário marcado para pegar o avião, outros compromissos. Ou seja, a sua rotina está limitada pelo tempo.

Porém, nada disso importa, pois os amantes estão “fora da temporalidade”.


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Ainda assim, a história que termina com um reencontro terá um próximo capítulo. Naquela primeira cena da livraria, por exemplo, logo após Jesse ter dito que “o tempo é uma mentira”, o mediador da entrevista diz que o “Sr. Jesse partirá logo”. É uma leve ironia, que contrapõe a realidade mais banal à “tendência ao atemporal” dos apaixonados.

É preciso viver dentro do mundo. Por isso, a partir daí, a história de amor que “parece algo do outro mundo” ficará cada vez mais enraizada no cotidiano.

Nosso pequeno momento no tempo

Antes da meia-noite (Before midnight, 2013) não inicia com nenhuma canção. No prólogo do filme, assistimos Jesse levando Hank (seu filho do primeiro casamento) ao aeroporto. O menino está retornando da Grécia (onde estava passando as férias com o pai) para os Estados Unidos (onde reside com a mãe), e essa será só uma das fontes dos conflitos vividos por Jesse e Céline.

Apenas depois de um diálogo entre o pai e o filho, no qual percebemos a dificuldade de comunicação que existe entre eles, vemos Céline novamente, depois de nove anos. Ela está no carro, do lado de fora do aeroporto, aguardando por Jesse. Quando a vemos, descobrimos de imediato que agora os dois têm uma vida juntos, com duas filhas e uma série de outras responsabilidades.

Embora Antes da meia-noite seja um filme menos romântico (uma vez que o desenvolvimento narrativo culminará numa briga bastante amarga entre o casal), a sua mise-en-scène não deixa de ser poética.

O primeiro diálogo entre o casal já é uma conversa conflituosa, mas o conflito é pontuado pela apresentação de mais um belo cenário: a cidade de Messene, na Grécia. Ao cenário deslumbrante junta-se a trilha sonora composta pelo inglês Graham Reynolds, a qual, como já observei anteriormente 6Cf. o vídeo cuja preparação deu origem ao presente ensaio. , talvez seja a mais bela da trilogia.

Aos conflitos cotidianos de Jesse e Céline, Linklater contrapõe o cenário majestoso.

A reflexão a respeito do tempo aparece em vários momentos. Segundo Linklater, um dos principais objetivos do terceiro filme era o de mostrar que “a essência de um indivíduo não muda com o tempo”  7 Cf. a seção de citações na página do Linklater no IMDB.  . Novamente, Jesse e Céline falam bastante a respeito da transitoriedade, da efemeridade dos instantes e há um momento de memento mori quando, logo após Jesse ter contado para Céline a respeito da morte de sua avó, Céline lembra do filme Viagem à Itáliade Robero Rossellini, especificamente da cena em que os protagonistas visitam as ruínas de Pompeia e assistem à exumação dos esqueletos de um casal que morrera abraçado.

A reminiscência de Céline é uma consequência direta do cenário. Ela demonstra o poder simbólico da mise-en-scène do filme, que foi abordado da seguinte maneira pelo próprio Linklater:

“Ao situar os conflitos cotidianos de Jesse e de Céline [na Grécia], num contexto muito maior, você percebe que ‘não há nada de novo sob o sol’, que isso é algo completamente eterno. É normal haver conflitos entre os parceiros, os homens e as mulheres, as famílias. Gosto de pensar em nosso pequeno momento no tempo no meio de algo muito maior”. 8Cf. nota acima. 

Há no filme uma cena que representa bem a intersecção entre o cotidiano e o que Linklater está chamando de “contexto maior”: Jesse e Céline estão no píer, assistindo ao pôr-do-sol e, à medida que o sol desaparece, eles criam uma expectativa, como se aquela luz fosse algo a que eles ainda pudessem se agarrar para não perecer. É uma lembrança da realidade cósmica, sempre presente no cotidiano.

O pôr-do-sol no píer: a intersecção entre a realidade cotidiana e a realidade cósmica

À luz do que acontecerá depois, essa cena poderia ser interpretada como uma metáfora para o fim do relacionamento dos dois. Mas, além de ser uma história de amadurecimento, Antes da meia-noite é uma história de amor. E de um amor verdadeiro. Apenas, agora, esse amor está menos idealizado. A última frase que Jesse profere no filme é tão icônica quanto o “I know” do filme anterior. Ele diz: “Essa é a vida real, não é perfeita, mas é real”. O que nos leva à conclusão deste ensaio: ao conceito de contemplação amorosa.

A contemplação amorosa

O conceito de contemplação amorosa é do filósofo Olavo de Carvalho e descreve o modo pelo qual conhecemos verdadeiramente as coisas — tanto as concretas quanto as abstratas. Depois de explicar a diferença entre conhecimento universal de um objeto e o pensamento a respeito desse objeto, ele diz:

O objeto que não pode ser pensado, que transcende a representação subjetiva e jamais nela se esgota é algo que, radicalmente, não depende de nós, não está à nossa mercê, não é invenção nossa e só pode portanto ser aceito, recebido.

Aceitá-lo, recebê-lo, é respeitar sua integridade, nada projetar nele, nada acrescentar nem tirar. Implica, portanto, nada menos que o seguinte: desejar que ele seja o que é, não desejar que seja outra coisa. Esta plena aceitação respeitosa, porém, não pode ser somente passiva, sob pena de deixar amortecer o interesse que temos no objeto e, portanto, de fazê-lo desaparecer do nosso círculo de consciência. Tem de ser, ao contrário, uma aceitação desejosa: ela é um desejo ativo de que o objeto seja o que é, permaneça o que é, exista de per si e persista existindoEla não se constitui portanto somente de respeito (de re spicere = olhar e voltar a olhar). Ela é, plenamente, contemplação amorosa.  9 Olavo de Carvalho. Da contemplação amorosa.

Condição do conhecimento do mundo real, a contemplação amorosa é também condição do amor verdadeiro — daí o nome do conceito. Essa ideia é muito importante para o nosso contexto porque os conflitos que aparecem em Antes da meia-noite são, de certa forma, originados pela recusa da contemplação amorosa; pela contradição entre a humilde aceitação da objetividade da vida e a egoísta projeção subjetiva que não aceita a vida como ela é.

Quando, por sua vez, esses conflitos são resolvidos, isso acontece porque os personagens estão se aproximando cada vez mais da contemplação amorosa. Ela aparece, por exemplo, na seguinte frase que Jesse diz a Céline no momento do clímax do filme:

“Eu aceito tudo em você. A parte boa e a ruim. Eu sei que você não vai mudar e não quero que mude. Chama-se aceitar você por ser quem você é”.

A maturidade de Jesse repete a sabedoria contida num dos poemas mais belos de Camões, “tenho-me persuadido”. A reprodução seria fortuita se a expressão do poeta não fosse tão perfeita e, por isso mesmo, intraduzível. Diz o poema:

Tenho-me persuadido
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,
Nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.

Força é que logo passe:
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo. 10 Luís de Camões. Tenho-me persuadido…In: Lírica Vol. 1. Introdução e Notas de Maria de Lurdes Saraiva. Vila da Maia, Imprensa Nacional — Casa da Moeda, 1980, p. 35 (Obs. a grafia do poema foi transcrita exatamente como está no livro). 

A atitude que no poema de Camões dirige-se ao autoconhecimento, na relação entre Jesse e Céline é também dirigida para o outro, pois o conhecimento do outro, “a contemplação amorosa”, exige primeiro o conhecimento de si, e ambos são um exercício de humildade.

Still de Julie Delpy e Ethan Hawke durante as filmagens de Antes da meia-noite, no pier de Kardamili, na cidade de Messene

No poema de Auden que Jesse recita em Antes do Amanhecer, há um trecho que, embora não apareça no filme, pode ser útil para que conheçamos um pouco da sua personalidade. Após a enumeração das consequências do poder destruidor do tempo, aparecem os versos “You shall love your crooked neighbour/with your crooked heart”. Na belíssima tradução que o poeta Nelson Ascher realizou desse poema, ele optou pela seguinte solução: “Amarás o teu próximo traiçoeiro/com teu coração traidor”11Conferir a nota [1] acima.  . Poucos versos sintetizam tão profundamente a imperfeição do homem.

Para amar de verdade, é preciso ir além do que Borges chamou de “tendência ao atemporal”; é preciso aceitar o presente, pois é nó presente que os ciclos começam e terminam. Antes de amanhã — agora.

Afinal, sentimos saudades de determinados momentos da vida por causa da sua singularidade. A saudade é a confirmação da contemplação amorosa: um momento da vida foi especial porque foi exatamente do modo como foi, e não de outro. E é justamente por ter sido assim que gostaríamos que ele se prolongasse eternamente. Talvez tenha sido isso que Borges quis dizer quando falou que “o estilo do desejo é a eternidade”.

O coração humano nunca deixará de ser um “coração traidor”, mas é com ele que é possível exercer a contemplação amorosa: a aceitação desejosa de que o ser amado seja “exatamente como é, que permaneça como é, que exista per si e que persista existindo”. É ele que será capaz de vencer o tempo. Pois, como muito bem expressou Drummond na epígrafe deste texto, só quem ama é capaz de ouvir “o apelo da eternidade”.