Otelo – por Andre Klojda

1.

O sol da manhã de primavera derramava a sombra oblíqua da copa da árvore no rosto iluminado da moça. Ela sorriu – aliás, seu semblante era um sorriso inapagável nesse dia fresco. Aprumou o vestidinho florido, que ia só até o meio das coxas grossas, e caminhou dando pulinhos pelo parque. 

Ela admirou o entorno, e, aos seus olhos, todos pareciam pessoas felizes num dia feliz.

   Em sua mente, passavam, como num filme água com açúcar, os momentos da noite anterior. Beijos, abraços, um prato de massa e um bom vinho. Às vezes, repreendia-se pela euforia sentida – se a sentisse demais, poderia gastá-la toda muito rapidamente…

Enquanto passeava sem rumo pela praça, apenas sorvendo os pequenos prazeres à sua volta e em seus pensamentos, viu um rapaz que destoava do dia alegre, como uma quebra de padrão num tecido bem trabalhado. Sentado num banco, ele chorava. Em uma das mãos, segurava folhas de papel – uma carta de despedida de um amor perdido?

Por mais que seu coração tenha sentido pena desse jovem, a moça não conseguiu se concentrar nele por muito tempo. Para ela, a vida era uniforme naquele momento: era só alegria.

Alegria, alegria!

2.

O pipoqueiro não tinha mais a paciência de antes. Anos atrás, vibrava com a hora da saída das crianças do colégio: as pequenas corriam até ele com os trocados que, orgulhosamente, tinham juntado para comprar uma pipoca média com leite condensado. Nada de usar pegadorezinhos ou luvinhas, coisas que estavam entrando na moda por aí – a criançada queria mesmo era se lambuzar.  

Agora, ele não se importava em levar menos dinheiro para casa, desde que não houvesse gritaria e corre-corre. Estava cansado: eram anos, muitos, no calor acachapante da praça, que não dava trégua sequer em manhãs de primavera como aquela.

Os olhos outrora vibrantes, grandes, agora estavam sempre semicerrados; em vez de encararem cada cliente com jovialidade, apenas miravam ao longe, repousando em lugar nenhum. O homem de estatura mediana, bigode e camisa com os três primeiros botões sempre abertos, encontrava-se naquilo a que chamavam crise de meia-idade. Ou talvez isso fosse apenas um nome arbitrário para algo que acomete qualquer um de nós a qualquer tempo…

Seus olhos perdidos foram fisgados pela moça que passava saltitante, sorrindo para o dia e para o mundo inteiro – sorriu também para ele, o pipoqueiro, que, por um momento, sentiu-se aliviado do fardo da melancolia. A alegria da moça tinha esse poder. Infelizmente, ela era rápida, leve, quase flutuava, e logo sumiu entre as pessoas e as árvores.  

Buscando outro local qualquer onde se fixarem, os olhos do pipoqueiro encontraram o rapaz chorando no banco da praça, cabeça afundada nas mãos. Sentiu pena daquele jovem triste, jovem como a moça feliz – mas o pipoqueiro não pôde esconder, no íntimo, o prazer de enxergar alguém que parecia ainda mais desolado do que ele.

Talvez a justiça da vida esteja, exatamente, no fato de ser injusta. Ou não era nada disso? O pipoqueiro queria mesmo era entender Deus. 

3.

A senhora estava na rua sozinha pela primeira vez desde que vencera a doença terrível, cujo nome sequer pronunciava. Por que prender-se ao que já estava superado?

A vida é agora!, ela pensava ao embriagar-se do mais delicioso ar da estação. As árvores cheias, as flores desabrochadas – ela era como uma flor, cheia de vigor e beleza. Nem mesmo a moça radiante, lindíssima, que andava a pulinhos com toda a sua juventude causava-lhe qualquer inveja. Não sentia saudades da alegria pueril das meninas. Hoje, ela permitia-se ser mais do que jamais fora: sua felicidade de mulher madura era inegociável.

Dirigia-se à escola do outro lado da praça, para buscar a neta. Passariam a tarde juntas, fazendo o que a pequena quisesse. Começariam com um lanche divertido, quem sabe? Acenou para o pipoqueiro ao passar por ele, que não retribuiu, sequer pareceu enxergá-la – e tudo bem, não se amolaria por isso. 

Naquele fim de manhã, a única coisa que a tirou de seu prumo, por alguns instantes, foi o jovem tristonho no banco da praça. Como chorava com vontade! As costas arqueadas sobre os joelhos subiam e desciam, e quando ela chegou mais perto escutou os soluços. Tinha idade para ser um neto seu – teria sido uma avó jovem, nesse caso, mas ainda assim…

Baixinho, a senhora disse algumas palavras de conforto, que, se não chegariam aos ouvidos do rapaz, quem sabe chegariam ao seu coração – eu acredito nessas coisas, ela repetia consigo mesma. 

Olhou para o relógio e apertou o passo, para não se atrasar para pegar a netinha. 

4.

O rapaz tamborilava com os dedos da mão esquerda no banco da praça. Ansioso, não levantava o olhar – movia-o apenas entre os papéis meio amassados na mão direita e o chão. Chegara o seu momento. Naquela noite, estrearia a peça, seu primeiro protagonista, e ele tinha um medo: não conseguir chorar na hora certa. Não era, porém, um medo paralisante, e sim um que o estimulava, fazia com que quisesse ser o melhor Otelo que a cidade já vira. Mas, para isso, precisaria chorar – o diretor, em suas próprias palavras, fazia questão que seu Otelo derramasse “as mais doloridas lágrimas da história do teatro” sobre o corpo de Desdêmona. E onde seria melhor para praticar isso do que naquele banco de praça, naquela manhã de sol, sob a pressão dos olhares de um público desavisado?

De cabeça baixa, concentrado, começou a soluçar. Logo, rolaram as lágrimas, que molharam o papel; sua face transfigurou-se na mais triste das expressões – e ele vibrava por dentro. Chorando copiosamente, com a boca retorcida num esgar de amargor, sentia-se radiante. Seria um sucesso.