
Sinfonia de pedras, de Leonardo Valverde (Editora Libertinagem, 2025), não posso deixar de notar que, e a começar pelo título, é um livro estranho, é uma espécie de lírica que opera, ao menos aparentemente, contra os princípios da lírica. Seria um cavalo de Troia? Há uma canção de Gilberto Gil, bem do início da carreira em que lamenta o fato de a viagem à lua haver tirado a ela o mistério que inspirava a poesia, a lua não seria mais vista da mesma forma, por isso numa parte da canção ele adverte aos “poetas” e “seresteiros” que “é chegada a hora de escrever e cantar talvez as derradeiras noites de luar.” Manuel Bandeira, por sua vez, seguindo um caminho avesso ao romantismo aceita num poema, com gosto, o que lamenta Gilberto Gil na sua canção, fala de uma lua “Desmetaforizada/ desmistificada,/ despojada do velho segredo de melancolia,/ não é agora o golfão de cismas,/ o astro dos loucos e dos enamorados./ Mas tão somente/ satélite.” E assim encerra o poema: “Fatigado de mais-valia,/ gosto de ti assim:/ Coisa em si, – Satélite.”
A poesia de Valverde é pelo contrário uma celebração disso, arranca ou tenta arrancar às coisas os elementos líricos para devolvê-las às matérias de que são feitas ou das quais se acredita serem feitas (…executa a sonata/ mudando a tradição,/ arranca a metafísica/ do sagrado, já aceito/ sem nenhuma evidência/ sem subida ilusória/ na escada sem degraus…), como aliás o faz Manuel Bandeira com a lua, que deixa de ser símbolo de algo ou uma ilustração sentimental e é reduzida a mera presença física, a que chamamos de “satélite”. Na abertura do livro de Valverde, a parte mais abstrata é o verbo que depois se solidifica em pedras (Dessa palavra sonante [pedra], três consoantes, vogais/ a labial explosiva/ inicia a velha história/ de macacos bem sentados/ à procura por iguais.), é uma espécie de naturalismo aplicada à lírica, melhor dizendo, poesia científica, talvez uma das poucas experiências bem-sucedidas nesses experimentos, que lembra um pouco algo dos contos científicos de Lugones que estão em Forças Estranhas.
É de se destacar uma homenagem que faz a Bruno Tolentino mas por um caminho não diria inverso, e sim de outra natureza, como se houvesse uma tentativa de inverter a metafísica presente no original, traduzindo-a em seus próprios termos “Carregamos conosco, cada qual a seu modo/ a mesma simetria do entardecer em luz,/ talvez uma reação nuclear nos conduz/ à visibilidade eclíptica do nodo.”. Impressiona, porém, a beleza desses versos, em que descobertas científicas modernas e contemporâneas (“uma reação nuclear nos conduz/ à visibilidade…” têm qualidade e força isomórfica.) fornecem imagens à poesia, algo como um cavalo de Tróia cujos guerreiros ocultos mais contribuem para a edificação da cidade invadida que a destroem, mas que nem por isso deixa de desempenhar o papel que se espera do famoso cavalo de madeira, uma vez que essa edificação não se dá sem uma espécie de inversão lírica, algo equivalente ao libertar, mais uma vez com Bandeira, “a matéria” “para sempre da alma extinta.” O assombro causado pelos fenômenos da ordem divina dá lugar ao fascínio pelos instrumentos humanos e sua consequente elevação de escala na ordem das coisas: “dependemos da lente feita pelo artífice,/ feita de grãos de areia para um novo alcance(…)”, uma, aí sim, inversão não do soneto da Imitação do amanhecer de onde partiu, mas de “Nihil obstat”, publicado primeiro nos Deuses de hoje, em 1995, e depois no Mundo como ideia, em 2001, em que a figura do artífice, outrora atribuída a Deus, “no vaso harmonizado pelo oleiro [o sublinhado é meu]”, restringe-se ao homem; quiçá, algo lovecraftiano, com a diferença de que o horror cósmico dá lugar ao paraíso cósmico, em que o sobrenatural substitui-se por maravilhas intramundanas, ou ainda das experiências sobrenaturais só se extraem as manifestações físicas.
Poemas há como “Urheimat”, que são para serem lidos em silêncio, pois a voz encontra barreira em uma espécie de rodapé linguístico, que ladeia algumas estrofes, salvo engano, alguma expressão ou fórmula em alguma língua indo-europeia. Tenho certa reserva quanto a esse procedimento. Claro que podemos, sim, ler poesia em silêncio, mas alguma voz, uma voz mental, dá forma final ao que lemos. Se nem isso é possível, na melhor das hipóteses, sem um tropeço elocutório, é porque falta alguma coisa e fico com a sensação de que, talvez, a já mencionada expressão ou fórmula, que não se encaixa na estrutura geral do poema, pudesse ser dispensada sem perda.
O mais estranho de tudo é que, no geral, funciona, tem algo de eliotiano no conteúdo, na dicção, inclusive recorrendo como o poeta anglo-americano à cultura oriental, que se mistura às formas cabralinas, inclusive as medidas, sem contar que “La mer” inicia-se como uma emulação melódica de “O rio”, de João Cabral, “Nasci perto do mar”. Tenho predileção pelos poemas sobre a experiência de ouvir Jazz (“Jazz na vitrola” e “Birdland”), que são bem engenhosos, meio que reproduzem o aspecto serelepe das execuções jazzísticas, de um instrumento que entrega a vez a outro instrumento etc, poemas esses que se afastam emocionalmente do tom geral do livro, mas que dele compartilha a natureza, ou seja, Sinfonia das pedras expressa diversas emoções, entre as quais dor e alegria, porém nem a dor nem a alegria se transcendentalizam.
