O texto e a substância da vida – por Matheus Bazzo

— por Matheus Bazzo

O diretor Christopher Nolan, ao lançar Oppenheimer, exigiu dos distribuidores de cinema que ele fosse exibido em telas de IMAX por no mínimo 100 dias. Na produção, ele usou câmeras de filmagem em película e produziu o próprio filme analógico com uma milimetragem maior do que o padrão de mercado para garantir o máximo de informações e dinâmica de cor. 

Desde a produção ao lançamento, toda sua empreitada teve como finalidade extrair o máximo de atenção do público para o cinema e os efeitos visuais. Esse é o retrato do mundo em que vivemos: a visualidade nos convoca o tempo todo, querendo sempre nossa atenção voltada para um vídeo, uma imagem, uma animação, etc. Vivemos uma era da comunicação estritamente visual. 

Plataformas de streaming, canais de Youtube, TikTok, Instagram: todas as ferramentas de comunicação atuais apelam para o uso dos vídeos. Então, fica a pergunta: por que se comunicar por texto hoje em dia? Não seria esta uma forma arcaica e obsoleta de comunicação? 

Defender o texto é fácil. Alguns pontos a se considerar:

  1. Quando é necessária alguma formalização de um evento, um processo histórico, um documento, nos voltamos sempre aos textos. Os contratos atestam a superioridade dos textos. As pesquisas científicas, os papers, revelam o valor que damos à palavra escrita. O que está escrito é digno de confiança. Acreditamos mais nos textos do que nos vídeos. Não há Photoshop para palavras. 
  1. O processo de construção de um texto é um desafio de coesão e narrativa para o escritor. A escrita exige uma concatenação de ideias sem o apoio de imagens, músicas ou efeitos. Cobra-se muito mais do talento do escritor. E, portanto, o resultado é mais exigente e mais eficaz por ser vítima do suor miserável do autor. 
  1. Aqui o mais importante: se até mesmo os santos faziam direção espiritual por carta — como era o caso de São Francisco de Sales —, confiando suas almas aos seus pais espirituais através da comunicação textual, por que raios não deveríamos acreditar que o texto é capaz de exprimir ideias e sentimentos de maneira superior a qualquer outro recurso de comunicação? 

Não resta dúvida de que o texto é uma forma muito elevada de comunicação. E por ser assim, garante uma melhor absorção qualitativa das ideias e mensagens presentes na narrativa. As palavras evocam imagens e organizam nosso pensamento. O cinema e as artes visuais são capazes de estimular nossa sensorialidade e chamar nossa atenção. São artes que provocam nossa imaginação, enquanto a escrita é uma arte que penetra nossa imaginação. 

As artes visuais, até certo ponto, nos convidam à distração; a leitura nos convida à imersão. Nada mais do que palavras. Nada mais do que o preto da tinta — ou do pixel — no papel branco — ou tela de computador. Sem som. Sem distrações. O texto nos obriga ao foco. 

E aqui está um ponto fundamental para nosso aprendizado: somos moldados por aquilo em que estamos focados. Nossa alma é alimentada por aquilo em que depositamos nossa atenção. A atenção é, por assim dizer, a substância da vida. Aquilo que olhamos e admiramos irá moldar nosso comportamento e nosso modo de pensar e existir. Ou, como diria Camões em um de seus sonetos:

“Transforma-se o amador na cousa amada, 
por virtude do muito imaginar; 
não tenho logo mais que desejar, 
pois em mim tenho a parte desejada.” 

Por virtude do muito imaginar… Ou seja, por estar atento ao que ele ama, ele obtém interiormente o objeto de seu desejo. É por isso que é importante a leitura. Porque ler transforma nossa vida ao exercitarmos o foco naquilo que realmente importa. 

Hoje em dia, existe uma competição insana, desenfreada e alucinante pela nossa atenção. Há empresas bilionárias gastando infinitos recursos em pesquisas para descobrir uma forma mais eficaz de roubar nossa atenção e nos manter presos a uma tela. 

A substância da nossa vida é sugada diariamente por essas plataformas. E eles não podem vencer essa corrida. A primeira coisa que não deve acontecer é isso: que você desperdice a substância da sua vida. 

Quando morei em Florença, eu visitava frequentemente o Mosteiro de São Marco. Lá estão preservadas as celas onde o pintor Fra Angelico criou uma de suas obras mais bonitas. Cada cela tem um afresco diferente pintado em cada uma de suas paredes, apresentando uma passagem do Evangelho da vida de Cristo. 

Um monge era designado para uma dessas celas, onde viveria por toda a sua vida. No decorrer de sua passagem pela Terra, acordava e dormia olhando para uma mesma imagem da vida de Cristo. Através desse recurso, Fra Angélico obrigou que seus irmãos passassem a vida meditando um episódio da vida de Nosso Senhor. 

Com isso, ele garantiu que a atenção de seus irmãos não seria desperdiçada, mas nutrida. É o que todos nós devemos pretender.

O livro no fígado – conto inédito de David Carvalho

Todas as noites o Grão-turco sonha o mesmo sonho, onde se levanta da cama, em seu palácio na urbe de domos amarelos brilhantes, e anda completamente sozinho pelas ruas até se ver caçado por um Leão terrível.

#Listas – DEZ GRANDES SONETOS DA LITERATURA BRASILEIRA , por Gabriel Campos Medeiros

Sem incluir contemporâneos, meus critérios de seleção foram o vigor da expressão, a densidade do assunto e a clareza do conceito, foram aquela melodia bem composta, aquela imagem bem pintada, elementos que, encadeados no crescendo verbal necessário aos quatorze versos, culminam, quando não na impressionante chave de ouro, ao menos no arremate lógico que conforta a razão dos comuns e ofende a dos vanguardeiros.

Mais urgente do que impossível- Da palavra despida de Bruno Tolentino

– por Jessé de Almeida Primo – ” Lendo As horas de Katharina, de Bruno Tolentino, sou arrebatado pelo primeiro verso deste poema, “Morro sem cuidado”.”

Antes de Julho – Conto inédito de Matheus Bensabat

Estávamos na sala, arrumando a mesa para o almoço. Sérgio e Luís estavam no quintal, conversando perto da churrasqueira, próximos um do outro. Era uma tarde fria de junho.

Grande Desejo: Mímesis – René Girard e João Guimarães Rosa

– por Christiano Galvão

“Sem precipitações nem polêmicas, através de uma releitura atenta do que Riobaldo narra, talvez achemos mais do que essas obviedades que parecem reduzir Grande Sertão: Veredas a uma mera pegadinha ou “mentira romântica”; talvez achemos a “verdade romanesca” que, segundo o pensador francês René Girard, caracteriza a genialidade de escritores do porte de João Guimarães Rosa.