O Doente

– por Matheus Araújo

1.

Certa manhã, após uma noite repleta de sonhos estranhos, José acordou num salto, ofegante, devido ao barulho que vinha de fora do seu apartamento. Abriu a cortina e, pela janela do seu quarto, viu que os vizinhos estavam espalhados no corredor, fuxicando e olhando para ele. Rapidamente, José se levantou da cama, vestiu um roupão longo e azul, e, antes que chegasse à porta, ouviu três batidas fortes e uma voz: — Departamento de Saúde Pública.

Ele ajeitou o cabelo com a mão e girou a maçaneta; automaticamente entraram três homens — ou assim ele pensava que fossem — vestidos com um grossos macacões amarelos, botas pretas e luvas verdes; usavam também máscaras de proteção brancas, que cobriam toda a cabeça e possuíam dois respiradores grandes na altura das bochechas. Os olhos eram ocultados por imensas viseiras negras, de forma que nenhuma parte do corpo era visível.

Um deles trazia na mão um documento, o outro segurava uma vara e o último carregava um pequeno botijão em um carrinho de metal, de onde saía uma mangueira com um borrifador na ponta.

— Quem são vocês?, disse José.

— Somos do Departamento de Saúde Pública. Temos um mandado de busca e apreensão nesta residência, disse o que vinha à frente, com o documento na mão. José passou os olhos rapidamente no papel e comprovou o que o homem falava.

— Aqui diz que, na minha casa, há um centro de disseminação do novo vírus. Isso não é verdade.

— É o que vamos descobrir.

Automaticamente os três homens começaram a vasculhar o apartamento. Era um pequeno cubículo, típico de prédios suburbanos, em que a sala, a cozinha e o quarto ficavam no mesmo cômodo — apenas o banheiro era separado. As paredes eram cinzas, um tanto mortas, e os móveis estavam gastos ou enferrujados. O primeiro abria as gavetas do pequeno guarda-roupa, jogava no chão as vestimentas, fazia o mesmo com o armário de panelas e catava, pelos cantos, algo significativo. O segundo, com a vara, recolhia algumas roupas e as colocava numa sacola. O terceiro, usando a mangueira, espirrava um líquido esterilizante pelo ar.

Num canto, José roía as unhas.

— Encontraram alguma coisa?

— Muitas evidências. O homem apontou para o criado-mudo ao lado da cama. Em cima dele, um cinzeiro, uma carteira de cigarro e um isqueiro. — Quando entramos, o senhor estava sem máscara. Agora, percebemos que é fumante. Aposto que sua alimentação não é das melhores… Ele abriu a geladeira e viu uma garrafa de água, um resto de pizza e algumas comidas enlatadas. — Como imaginei. Além de descuidado, pertence a dois grupos de risco.

— Mas isso é tão ruim assim?

— O senhor não assiste televisão? É péssimo.

José lembrou-se de que nunca mais havia assistido a qualquer noticiário na televisão. Há anos ligava o aparelho apenas para assistir a algum filme ou vídeo interessante — no mais, usava apenas o telefone. Contudo, ele sempre escutava as notícias através dos vizinhos. Ele sabia que uma doença havia se espalhado pelo país e que as autoridades sugeriram que todos ficassem em casa. Sair só seria permitido em determinados horários do dia e sempre de máscara. Mas, de forma alguma, imaginava que poderia espalhar aquela doença mesmo estando em confinamento.

A verdade é que o cotidiano de José não mudara muito em tempos de peste. Era escritor, então sempre trabalhou em casa. Pela manhã, tomava um café e já se sentava para produzir seus contos ou traduzir livros ruins. À tarde, após o almoço, se sentava para revisar o que havia feito anteriormente e somente pela noite ele descansava um pouco a cabeça, assistindo a filmes trash baixados na internet ou ouvindo álbuns de rock.

No mais, só saía mesmo quando ia ao mercado ou aos sebos — e como estes estavam fechados por tempo indeterminado e já começaram a falir, os motivos para pisar fora de casa diminuíram pela metade. Apesar disso, aparentemente havia algo de muito errado com ele e com seus cuidados, pois os homens do Departamento de Saúde Pública vasculhavam cada pedaço de seu pequeno apartamento.

— Quando foi a última vez que o senhor saiu?, disse um deles.

— Não me lembro muito bem, acho que foi na semana passada.

— O que foi fazer?

— Fui ao supermercado, estava sem comida.

— Usou máscara? Respeitou o distanciamento? Fez a higienização das roupas? Lavou a máscara? Banhou-se com sabão amarelo? Esterilizou as compras, as sacolas e a maçaneta?

— Desculpe-me, era preciso fazer tudo isso?

— Tsc, tsc, claro que era.

De repente, o homem sacou do macacão algo que parecia uma pistola e apontou para a cabeça de José, que permaneceu onde estava. Observando mais atentamente, José percebeu que o instrumento era, na verdade, um medidor de temperatura. Em segundos, escutou apitos contínuos.

— Falta pouco para que o senhor entre no estado inicial de febre.

— Mas não estou doente, não é?

— O senhor é um semi-doente, ou um quase doente, e isso precisa ser tratado.

— Como assim?

— O seu estado é preocupante. Tudo indica que pode vir a apresentar sintomas e que pode vir a ficar doente, numa situação futura. O DSP se preocupa com isso.

— Realmente, isso é muito ruim.

— Claro que é. Dadas as atuais circunstâncias, precisaremos colocar algumas medidas importantes em ação em nome do bem-estar social.

— Certo, entendo perfeitamente. Posso ir ao posto de saúde e tomar alguns remédios, além de, claro, daqui para a frente cumprir todos os protocolos.

— Vamos precisar levá-lo.

— Para onde?

— Para o Hospital Central do Departamento. O senhor terá os melhores médicos especializados na doença. No momento, milhares de infectados estão sendo tratados lá.

— Bom, se for assim, ótimo. Deixe-me só colocar na bolsa algumas roupas.

— Não será preciso, senhor. Além disso, tudo dentro da sua casa pode estar infectado.

— Claro, claro, que burrice a minha.

— Peço que o senhor fique parado, de braços abertos e pernas afastadas. José ficou na posição que fora pedida. — Feche os olhos, por favor. No instante que José fechou os olhos, sentiu o borrifar do esterilizante por todo o corpo, encharcando seu roupão e seu cabelo. — Agora vire de costas. Assim ele o fez e o procedimento foi repetido. A sensação era um pouco desagradável, mas José não queria, em hipótese alguma, ficar doente — se não já estava, sem o saber. Era melhor se tratar enquanto tinha tempo.

Um dos homens trouxe uma enorme máscara com dois respiradores e a colocou em José sem muita cerimônia. Puxou-o pela mão e o levou para fora do apartamento. O prédio era composto de dois blocos enormes, divididos por dois corredores que se estendiam longamente, de forma que os apartamentos ficavam de frente um para o outro, e a única visão das janelas eram os outros apartamentos do conjunto. A cor do edifício era predominantemente branca, com portas de madeira, e os habitantes pareciam se preocupar muito com a limpeza, pois tudo tinha um ar de higienizado. Em geral, ninguém perambulava ou conversava pelos corredores, os moradores costumavam ficar o tempo inteiro em casa e eram sempre bem silenciosos. Porém, naquele dia, as portas estavam apinhadas de gente que observava, com muita curiosidade, o que estava acontecendo. Os murmúrios eram tantos que pareciam os zumbidos de uma colmeia.

Do lado de fora do cubículo estava a maca em que José foi posto.

— Vamos levá-lo ao hospital. Fique tranquilo, você será bem tratado.

“Ótimo”, pensou José.

Os homens fecharam as cortinas, bateram a porta e, ao redor do apartamento, puseram uma faixa onde estava escrito “Entrada Proibida: Área de Risco”.

2.

José ia sendo levado pelos corredores na maca. Os homens do DSP pediram que ele não se movesse muito nem olhasse para os lados, ele obedeceu, focando apenas no teto, observando as lâmpadas que passavam rapidamente. Ele sabia que o corredor do seu condomínio era grande, mas não imaginava que fosse tão longo, pois José teve a impressão de que foi levado durante uns cinco minutos, até que tudo escureceu.

Dentro da escuridão, continuou sendo carregado na maca pelos três homens, enxergando apenas vultos e silhuetas, e começou a se perguntar se eles não haviam errado o caminho da saída. A verdade é que nunca havia estado naquele local do seu edifício, nem mesmo sabia que existia. Talvez fosse uma passagem específica para os doentes. Ele quis perguntar e até alertar, porém preferiu ficar quieto, supôs que eles sabiam o que estavam fazendo.

Finalmente, entraram num elevador. Dentro também estava escuro, apenas umas pequenas luzes verdes saíam do painel que indicava os andares. Era um painel enorme e José não conseguiu contar quantos andares eram. “Definitivamente, eu nunca vim aqui”. Ele começou a bisbilhotar o ambiente com os olhos, e percebeu que o elevador também se alargava infinitamente. Sentiu um solavanco e, com ele, um suor frio nas mãos e um embrulho no estômago. Desciam andares e mais andares, como se o poço não tivesse fim. Ao mesmo tempo, os três homens começaram a levar José ao longo do corredor. Num instante, o elevador parou bruscamente, mas a maca continuou indo até o outro lado, onde se abriu numa porta que dava para um novo corredor.

Conseguiu ver alguma coisa de forma clara novamente quando chegaram ao hospital. Ele não imaginava que não precisaria pisar na rua para ser atendido, mas aparentemente os homens do DSP conheciam algum caminho especial. Era um galpão enorme, largo e alto, com refletores no teto e uma estrutura de metal à mostra. Com a visão periférica, José conseguiu enxergar que os corredores e quartos do hospital eram separados por finas paredes de vidro. Pelos consultórios que passou, não viu nenhum paciente sendo atendido nem nenhum doente à espera da sua vez, apenas médicos entediados nos consultórios, ou mexendo no celular ou cochilando. Ele esperava multidões se apinhando e procurando uma consulta — e se sentia até privilegiado de ter um atendimento tão especial —, mas não foi isso que viu: o lugar estava vazio. O que o fez pensar que podia ter acontecido algum engano.

— Ou vai ver que serei examinado por vários deles, quem sabe?

Um instante depois, José sentiu a maca parar.

— Pode descer.

Quando se levantou, deu de frente a uma pequena sala de atendimento. Uns banquinhos em fila estavam dispostos do lado direito, acompanhados de uma palmeira num elegante vaso branco, e de frente aos assentos ficava uma televisão. No fim da sala, uma atendente estava prostrada atrás de um balcão verde em formato de lua.

— Pronto, pode falar com a atendente. Ela já tem o seu relatório, disse um dos homens do DSP.

— Muito obrigado!, disse José, animado por finalmente ter chegado ao destino.

A passos rápidos, ele se dirigiu ao balcão, enquanto os homens do DSP recolhiam a maca e sumiam entre os corredores de vidro. Ele se debruçou sobre a bancada e disse:

— José Ferreira da Silva, vim aqui por recomendação do DSP.

— Senha, por favor.

— Como? Não entendi.

— Pegue uma senha e aguarde a sua vez, por favor.

A atendente, com um avental e uma máscara branca, pareceu um pouco rude aos olhos de José, mas ele imaginou que fossem as doses estressantes de trabalho. Receber milhares de pacientes por dia, todos portadores de uma doença mortal e extremamente contagiosa, não era nada fácil. Ele fez o que foi pedido, retirou sua ficha na maquininha ao lado do balcão e sentou-se nos bancos para esperar. Notou, no entanto, que não havia nenhum outro paciente esperando na fila, e que sua ficha contava com o número “1” escrito.

— Moça, me desculpe, deve ter ocorrido algum engano, disse José, se aproximando vagarosamente da atendente. — Não há mais nenhum paciente aqui e minha ficha é a primeira… não seria a minha vez?.

— Vocês, pacientes, são engraçados, acreditam que são os únicos doentes.

— Mil perdões se me fiz entender assim, não é isso.

— Se não é, peço que sente e espere.

— Mas é que não há ninguém na fila… Estou realmente preocupado com o meu estado de saúde.

— Todos estamos, mas é preciso ter alguma ordem, concorda?

José, corado, recolheu-se e sentou-se novamente em um dos bancos. Vasculhou algumas revistas que estavam dispostas no centro, mas eram todas de moda ou de política — coisas que José realmente odiava. Depois, mudou algumas vezes o canal de televisão, variando entre o programa de culinária, em que uma senhora de cabelo roxo cozinhava Strogonoff de Camarão enquanto falava da doença, e o canal de notícias, em que um homem elegante de cabelos grisalhos também falava da doença. Ele não sabia que horas eram, pois havia deixado o celular e a carteira no apartamento — o que não faria diferença, pois o roupão não tinha bolsos —, mas na sala também não havia um relógio. Ficou envergonhado de perguntar à moça, principalmente porque ela apenas lixava as unhas olhando monotonamente, vez ou outra, para o computador.

José já batia incessantemente os pés quando, de repente, a moça anunciou.

 — Ficha um!

— Eu, finalmente!

— Está vendo? Todo mundo tem a chance de ser atendido, bastava se acalmar.

A moça digitou alguns dados no computador, entortou um pouco o rosto e franziu a testa.

— Preocupante.

— O que eu tenho?

— Vou encaminhá-lo para a triagem.

José foi dirigido até um consultório que ficava ao lado da sala de atendimento. Na verdade, não poderia chamar de consultório. Aliás, nem de sala. Lembrava, a José, um pequeno banheiro de rodoviária, higienizado e emparedado com um vidro fosco. Ele se apertou e sentou no banquinho que estava encostado na parede; do outro lado estava um homem muito gordo, com partes da barriga e da perna pendendo para fora da cadeira, vestido totalmente de branco e com uma máscara pequena demais para o próprio rosto. Entre eles, uma divisória de vidro até a altura do peito espremia ainda mais os movimentos.

— Estique o braço, por favor, pediu o enfermeiro. José tentou, apesar do aperto. O homem enrolou, no braço de José, um medidor de pressão, e logo depois, com uma agulha bem fina, picou-lhe a ponta do dedo e recolheu uma amostra de sangue. — Agora o outro braço, por favor. Então José esticou o outro braço, com ainda mais dificuldade (já suava e respirava ofegantemente), e sentiu o enfermeiro prender no indicador um oxímetro.

— Dificuldade para respirar?, disse o enfermeiro.

— Começou agora, acho que é o ambiente. Sou meio claustrofóbico.

— Entendo, entendo. Está suando. Cansado?

— Sim, mas acredito que seja a sala. Não acha que é um lugar abafado?, disse José, que começava a ficar nervoso com as perguntas.

— Não muito. Seus batimentos também começaram a aumentar, assim como sua pressão arterial. Preocupante, disse o enfermeiro, retirando todos os equipamentos de José e fazendo um sinal com a mão para que ele se recolhesse.

— Estou mal, doutor? Estou doente?

— Veja, pela sua ficha, seu histórico e o que apresentou aqui na sala, o senhor tem todas as características de um semi-doente, ou um quase-doente, como costumam dizer. O semi-doente não possui os sintomas, mas apresenta um quadro de alguém que pode vir a desenvolvê-los, no futuro.

— Meu Deus. E é grave?

— Gravíssimo, às vezes pior do que o próprio doente, pois é impossível saber se o semi-doente pode ou não infectar outras pessoas..

— Então, eu estou com o vírus?

— Esta é uma pergunta que eu não sei responder. Nem há alguém que saiba. E é por isso mesmo que o senhor foi encaminhado para cá. Precisa ser tratado e isolado.

— Eu deveria ter me cuidado mais.

— Com certeza. Mas fique tranquilo. Vou encaminhá-lo para o médico que vai examiná-lo..

3.

José começava a ficar preocupado com a própria saúde. Suava frio, mas mesmo assim sentia um calor muito grande. Apresentava cansaço e uma sonolência que não sabia exatamente de onde vinha. “Como eu nunca havia atinado para isso antes? Eu estava me colocando numa situação de risco e nem notava. Posso estar doente e nem mesmo percebi. Ainda bem, ainda bem mesmo, que o DSP veio atrás de mim. Sem isso, é bem capaz que eu morresse sem ninguém perceber..

O consultório do doutor ficava logo ao lado da sala de triagem e José foi conduzido para lá sem muitas dificuldades. Ignorando as paredes de vidro fosco, era um consultório comum: uma cama, dois lixeiros (um para resíduos comuns e outro para resíduos infectados), uma pia no canto, alguns quadros que mostravam a anatomia humana, e uma mesa branca retangular, com um computador em cima e uma cadeira de cada lado.

Mas não havia nenhum médico. José entrou, a passos pequenos e desconfiados, olhando ao redor, e achou por bem sentar na cadeira, esperando que alguém aparecesse. Não gostaria de incomodar, de forma alguma, o DSP com sua presença. O favor que eles estavam fazendo já era muito grande e ele não teria como agradecer. Até pensava que eles poderiam cobrar alguma coisa depois, porém ele não fora avisado de nenhuma cobrança, nem mesmo o aumento nos impostos. Balançando a cabeça, descartou a ideia e aguardou o médico.

Batia os pés e roía as unhas incessantemente, olhava para um lado e para o outro, se levantava dando voltas na sala e, de vez em quando, pousava as costas da mão no pescoço para ver se tinha febre, ou checava o punho com dois dedos para sentir a pulsação. A máscara, por maior que fosse, não o incomodava. Surpreendeu-se porque, durante todo esse tempo que estivera em casa na pandemia, não apresentara nenhum sintoma da doença nem nenhum incômodo no corpo. Assim que chegou no hospital, começou a perceber que estava fraco: as juntas da coluna doíam, provavelmente devido ao tempo que passava sentado escrevendo, a respiração era fraca e falha, uma moleza abatera o seu corpo e qualquer movimento brusco o fazia perder um pouco o equilíbrio. A testa começava a latejar e o tilintar nas têmporas ia aumentando vagarosamente.

Nos instantes em que José pensava cada vez mais no seu estado de semi-doente, o médico entrou. Vestia um jaleco comum e uma máscara simples descartável, escondendo a barba que só aparecia quando alguns fios se mostravam na altura do pescoço. Ele passou por José sem cumprimentá-lo e sentou-se na sua cadeira, olhando diretamente para o computador. José ficou confuso e correu para sentar-se.

— Bom dia, Doutor.

— O que você tem?, disse o Doutor, sem tirar os olhos da tela.

— Bem, eu não tinha nada até ontem, mas hoje o pessoal do DSP foi lá em casa…, enquanto José falava, o Doutor digitava rapidamente algo no computador, que José não conseguia ver.

— Por que parou?

— Desculpe-me. O pessoal do DSP foi lá em casa e verificou que lá existia um foco de contaminação do novo vírus… Bom, eu não senti nada antes deles baterem lá. Agora já estou com um pouco de dor de cabeça, cansaço, moleza…

— Como estava a alimentação?, disse o Doutor, ainda digitando.

— Eu pedia muitos fast-foods e no geral comia muitos enlatados.

— Péssimo, péssimo. E o sono?

— Geralmente, durmo às 5h e acordo ao meio-dia. Gosto de trabalhar de noite.

— Sabe que isso não é bom e mesmo assim faz.

— Desculpe-me, disse José, cabisbaixo.

— Usava máscara?

— Quando ia ao mercado, sim.

— E dentro de casa, quando recebia comida?

— Confesso que não.

— Imagino que também não higienizava os produtos com álcool em gel…

— Às vezes eu me esquecia.

O Doutor fez um movimento negativo com a cabeça e continuou a digitar, sem se virar para José, que pensava “ele não vai nem me examinar?”. A dúvida pairou um pouco sobre sua mente, mas logo se esvaiu como fumaça: “nem lembro mais quando vim ao médico pela última vez, hoje está tudo tão diferente”.

— Pronto, vou pedir a sua internação.

— Como assim, doutor?, disse José, de olhos arregalados.

— Pelo que consta dos seus sintomas, dos seus hábitos, costumes, e os exames que foram realizados, você está num estado realmente preocupante.

— Exames? Não lembro de ter feito nenhum exame.

— Enquanto o senhor estava aqui na sala, fizemos o raio-x do seu pulmão. Por qual motivo acha que eu demorei?

José pensou que deveria ficar calado. Realmente as coisas tinham mudado muito.

— E qual é o meu estado, Doutor?

— Aquele que o DSP desconfiava desde o início. Você está quase doente.

— Meu Jesus, e agora?

— Fique tranquilo, você será muito bem tratado. Não há mais motivos para preocupação.

— Um instante depois do Doutor falar isso, entraram pela porta os três homens do DSP.

4.

José voltou para a maca e foi carregado até uma enfermaria. Era uma sala grande, longa, com vários leitos divididos por cortinas verdes, algumas enfermeiras aqui e ali, sons eletrônicos dos equipamentos, borrifador de esterilizantes no teto (espirravam toda vez que alguém passava por baixo), mas nenhum paciente. José pensou: “eles são bons mesmo. Tratam milhares de pessoas por dia, mas os doentes não ficam aqui por muito tempo. Rapidinho vão embora, e comigo também vai acontecer isso”.

— Pronto, é aqui que você será tratado, disse um dos homens do DSP, parando a maca em frente a um dos leitos, dirigindo a mão à cama, para que José se dirigisse até lá. Ele fez o que foi pedido: deitou-se na cama e agradeceu. — Não é preciso agradecer. Tudo o que fizemos é pela sua saúde e pela saúde da população, disseram os três e logo depois saíram pelo corredor.

José olhou atentamente ao seu redor e o local parecia uma enfermaria como qualquer outra. Uma enfermeira apareceu no leito, apertou alguns botões em equipamentos que José não fazia a menor ideia do que eram, pediu que José retirasse a máscara, o roupão e se cobrisse apenas com o lençol. Plugou no peito dele umas bolinhas de metal, agarrou-lhe umas pinças de plástico nos pulsos e nos calcanhares e aferiu a sua pressão novamente. O rosto da moça, ao olhar para os monitores, transformou-se numa expressão de espanto. Automaticamente, puxou um telefone de fio que estava na parede, discou um número e colocou-o no ouvido.

— Preciso de uma equipe no leito 127, com urgência.

— Meu Deus, o que aconteceu?, disse José.

— Fique tranquilo, senhor. As outras enfermeiras já estão chegando.

Foram os segundos mais terríveis da vida de José. Começou a sentir o coração pular do peito, a garganta apertar, as mãos esfriarem e o corpo enfraquecer formidavelmente. Culpou-se por não ter se cuidado, não ter se alimentado bem, não ter saído de máscara, por não ter higienizado todos os seus produtos, por não ter assistido televisão todos os dias para se informar. Culpou-se por ter sido tão relapso, tão imbecil, tão desinformado. No fim das contas, se morresse por conta dessa doença, tudo seria culpa dele, dele unicamente e de mais ninguém.

Prometeu, prometeu para si mesmo e para Deus, que se saísse dessa, nunca mais faria tais coisas. Seria um cidadão responsável, que zela por si e pela saúde pública, assistiria aos telejornais, ouviria rádio e leria os jornais impressos, acataria as ordens públicas, andaria dentro das leis, respeitaria as autoridades: faria tudo o que não fez.

Logo chegou a equipe médica. Rapidamente, cercaram José, que ficou com a visão turva, colocaram luzes em cima dele, estetoscópios no seu peito, soro na sua veia, termômetro embaixo do seu braço, abriram seus olhos com os dedos e o observaram com atenção; pediram que ele abrisse a boca e colocasse a língua para fora, puseram um longo cotonete no nariz dele para coletar um material viral e, se distanciando, começaram a cochichar entre si.

Quando voltaram, uma enfermeira tomou a frente:

— Senhor José, vamos precisar entubá-lo.

— Qual é o problema? O que eu tenho?

— Seu estado é mais grave do que pensávamos.

— Então, o que estão esperando?

— Viemos avisar ao senhor. O senhor será entubado e sedado, até que possa apresentar um quadro mais estável.

— Com certeza, por favor, não posso morrer ainda.

— Fique tranquilo, vamos tomar todas as medidas necessárias para que isso não aconteça.

A enfermeira puxou do bolso uma seringa, furou o braço de José com a agulha e empurrou o líquido até o fim. José já dormia.

5.

Estava nu, deitado em uma gelada cama de alumínio. O local era escuro e sombrio, apenas alguns fiapos de luzes deslizavam entre as brechas da porta, o que não permitia a José ver muito ao redor. Sentia dores nas costas, tanto na altura da lombar quanto no pulmão, um estado febril também o acometia. As pernas e os braços estavam fracos e capengas, com os músculos flácidos, como se ele tivesse sido dopado.

Esfregou um pouco os olhos com as costas da mão e se sentou, olhando ao redor. Não via muita coisa, apenas vultos, que sugeriam uma sala vazia extremamente refrigerada. Levantou-se, apoiando-se onde conseguia e tateando a parede gelada na esperança de encontrar algum interruptor. De repente, uma forte luz branca se acendeu; José fechou os olhos, protegendo-se, e logo depois os abriu calmamente.

A sala era quadrada, composta de paredes metálicas com gavetas embutidas, um tubo de refrigeração que saía do teto e um chão acinzentado e opaco. Ao lado da cama de alumínio, estavam penduradas as roupas de José, e, numa pequena bancada, seus outros pertences. José estranhou, pois não usava máscara e não a viu mais em lugar algum. Estava atordoado: suas últimas lembranças eram de quando estava prestes a ser entubado. O que havia acontecido? Melhorou? Conseguiu se curar?

Vestiu o roupão e resolveu sair da sala. Deu de cara com os corredores de vidro e uma recepção mais à frente. Caminhou até as duas moças que conversavam distraidamente por trás da bancada.

— Com licença, onde eu estou?

— Boa tarde, senhor. Aqui é o despacho do DSP.

— Ah, perfeito. Devem ter me explicado alguma coisa de que não me lembro. Já devo estar pronto para ir. Preciso pegar algum documento?

— Qual é o seu nome?

— José Ferreira da Silva.

Uma das moças teclou rapidamente no computador; logo retirou um papel da impressão, colocou num envelope e o entregou a José.

— Muito obrigado. Por onde é a saída?

Elas indicaram uma porta de metal no fim do corredor. José caminhou até lá vagarosamente, ainda estava um pouco confuso e lerdo, com os pés pesados e lentos, sem muita noção espacial, o que o forçava a andar apoiando-se nas paredes. Do outro lado da porta havia uma escada que apenas descia. O ambiente era escuro, um pouco poeirento e tinha um leve cheiro podre, como se a limpeza não tivesse conseguido retirar o odor completamente. Ele desceu as escadas com calma, passo a passo, guiando-se pelo corrimão, com o envelope embaixo do braço. Depois de tudo aquilo, só queria chegar em casa. Enquanto descia os lances, percebeu que não fazia a menor ideia de quanto tempo passara no hospital. Para ele, não parecia que um dia tivesse passado. Mas seu corpo dava a impressão de que havia ficado meses ali dentro. Começou a cansar, ofegante, um aperto doeu-lhe no peito — então parou, respirou fundo três vezes e voltou a descer. E desceu por lances e mais lances, tropeçando, parando e cambaleando, até que viu uma porta onde estava escrito “saída”.

Quando saiu, o ambiente era iluminado, ofuscando-lhe a visão. Eram dois corredores paralelos com um vão no meio e neles estavam apartamentos com portas verdes, pequenas janelas e paredes branquíssimas. O local pareceu muito familiar a José, que começou a olhar tudo com desconfiança, até que percebeu os olhares que os vizinhos, nas portas e nas janelas, lhe retribuíam. Estava no seu condomínio.

Reconhecendo o caminho de casa, andou mais rápido até o número 1227. Aproximando-se, percebeu que o número de vizinhos do lado de fora da casa aumentava e os cochichos se acumulavam numa grande profusão de mexericos por todos os lados. Quando chegou em frente à sua porta, percebeu o porquê: uma equipe policial esvaziava o seu apartamento, deixando os móveis jogados do lado de fora, no corredor.

— Ei, o que aconteceu?, gritou José.

— O antigo morador infelizmente faleceu devido ao novo vírus. Estamos desocupando o apartamento, disse um dos policiais.

— Não, não. Deve ter havido um engano. Eu moro aí, essas coisas são minhas.

— Senhor, não temos tempo para brincadeiras. O antigo morador, José Ferreira, faleceu há uma semana. Recebemos a ordem para desocupar o apartamento e vamos cumpri-la. Espero que o senhor não nos atrapalhe.

— Eu sou José Ferreira! Eu moro nesta casa! Vocês não podem nunca fazer isso.

— Como pode provar?

— Olhe aqui!, disse José, babando de raiva. Pegou o envelope embaixo do braço e entregou ao policial.

— Veja esse documento. Eu adoeci, estava no hospital.

O policial abriu o envelope e olhou o papel. Levantou as sobrancelhas e entregou de volta para José.

— Senhor, não temos tempo para brincadeiras.

— Que brincadeira? Vocês não estão vendo aqui?

José inflou o peito para ler o documento em voz alta, enquanto os vizinhos o olhavam e os policiais esperavam alguma resposta. Iria desmascarar todos eles, reverter aquele engano, acabar com a palhaçada. Mas logo murchou. No papel, estava escrito: “Atestado de Óbito de José Ferreira da Silva”.


Matheus Araújo é diretor do documentário “A Morte da Literatura”, professor, escritor e criador do COL – o Curso Online de Literatura.