Em memória de Emmanuel Santiago (1984-2026) – por Jessé de Almeida Primo

Emmanuel Santiago, que nos deixou no dia 23 de abril, era um nome do qual muito ouvira falar mas para o qual não dava atenção devida.

Abrindo um parêntese pessoal, não fosse Karine Braga, autora de Cantos brilhando nos escombros(ed. Mondrongo, 2021), um estudo muito importante da obra de Alberto da Cunha Melo, insistindo em que eu o lesse, e ainda usando como isca o poema “Sonho recorrente – ou seis passos para um poema surrealista”, uma das sextinas mais visionárias da nossa literatura, que nos pinta um dos sonhos mais bem arquitetados de que um poeta é capaz, mais tarde publicado em Pavão bizarro, seu livro de estreia, livro este também que ela me apresentou, e cujos poemas recitava com muita frequência, talvez continuasse ignorando uma obra poética sem a qual a literatura brasileira seria outra coisa. Sim, caro leitor, entusiasmo “pega”, e o dela pela poesia de Emmanuel era contagiante e muito lhe agradeço por isso.

Poderia eu – em virtude de parte significativa de sua recepção, e também por seu gosto pessoal – ser tentado a relacionar a sua poesia com certa tendência progressista. Isso, porém, nos afastaria do que realmente interessa e nos colocaria no campo da falsa polêmica, ignorando que, no final das contas, todos os grandes autores recorreram, com a mesma competência e criatividade, tanto às diversas formas disponíveis na grande tradição bem como às relacionadas com as vanguardas, que em algum momento também farão parte dessa mesma tradição. Senão, vejamos, progressista era Baudelaire; também Rimbaud, poeta da revolta. Progressista era Castro Alves, conhecido como poeta dos escravos, romântico – um adjetivo revolucionário – de inspiração iluminista, e Iluminismo nada mais é que romantismo cuja emoção é presumivelmente racionalizada, enfim, algo como uma revolta de côrte. Drummond, um dos poetas preferidos de Santiago, oscilando entre a quietude agnóstica e a revolta gnóstica, de onde aliás extrai uma poderosa poesia metafísica, idem. Apesar de sua relação com um catolicismo místico, quiçá por isso isso mesmo, a poesia de Jorge de Lima, tanto no telurismo dos primeiros livros bem como no hermetismo órfico da fase seguinte, é igualmente progressista, assim como a poesia parnasiana, uma das fontes da poesia de Emmanuel Santiago(De papel de seda finíssimo,/ fiz teu corpo fibra a fibra/ modelado na pétala, forma/ de pura textura e volume. Observem que o título é “Origami”.), vem de uma linhagem progressista, a poesia cuja claritas é uma reação contra o obscurantismo religioso, como aliás é progressista o próprio soneto cuja forma é um símbolo humanista. Afeito ao progressismo era também Emmanuel Santiago, que junta em sua obra, a um só tempo, a claritas humanista parnasiana, a revolta romântica, que inclui, por meio de uma nova tecnologia poética, a revolta social e metafísica, e o visionarismo poético (Num céu estilhaçado, a lua escorre/ pelos olhos, fosca e opaca, cor/ de cocaína batizada, e/ me deixa chapado respirando/ a fumaça cruenta do asfalto.) que se distribuiu igualitariamente a poetas de inclinações tão diversas, e de tal maneira que chamei a ele, em certa ocasião, de “Murilo Mendes de calça jeans”, sim, tanto um como outro concebeu poeticamente um visionarismo de alta voltagem que talvez só fosse possível a olhos provincianos, que, mais atentos ao chão novo que pisa, nele enxergasse por lentes de aumento, ou por que não, lentes que restauram o verdadeiro tamanho às coisas.

Esses olhos provincianos, que têm a virtude de enxergar a noite não como um elemento de ocultação das formas, mas antes como um meio de revelar todos os seus contornos, “Feito um bombardeio, a noite/ se abate sobre São Paulo/ e a cidade arde, incandescente.”, é o símbolo mesmo do poeta, que não se encaixa em lugar algum, mas conhece esses lugares como nenhum outro é capaz de conhecer, são olhos de quem ainda tem a virtude de se espantar, de maravilhar-se, e não descansa enquanto não encontra uma maneira de exprimir senão o que vê, ao menos a impressão que lhe deu aquilo que vê, que é outra maneira de revelar o que é visto. De resto, descanse em paz, poeta, que teve a benção de ser muito querido, mas por ser poeta nunca deixou de ser um exilado, e assim rogo por que seja bem acolhido e encontre um bom lugar na eternidade.

Compre “A ave Lúcifer”, de Emmanuel Santiago.