“Elegia 1938” um poema do subsolo – por Pedro Sette-Câmara

O subsolo pode ter recebido esse nome na Rússia, mas a experiência é universal o suficiente para poder ser discernida nas diversas literaturas. Em Portugal, Álvaro de Campos é o heterônimo subsolesco de Fernando Pessoa, especialmente em “Tabacaria” e no “Poema em linha reta”. No Brasil, o poema mais subsolesco de que me lembro é “Elegia 1938”, de Carlos Drummond de Andrade, que se presta muito bem a ser lido à luz de Dostoiévski.

O poema é um discurso dirigido a um “homem do subsolo” que pode até não ser um bufão como Fiódor Karamázov (o “velho bandalho”, como disse Nelson Rodrigues) ou como o narrador de Memórias do subolo (1864), mas que nos apresenta talvez a expressão mais banal, mais presente na vida cotidiana, mais gente como a gente, do subsolo — aliás, com tudo que ela pode ter de mais sinistro e assustador, ao deixar clara sua continuidade com atos nada banais.

Começa o poema:

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não
encerram nenhum exemplo.

São versos que têm algo de iniciático. Podem ser lidos de duas maneiras, a partir de dois pontos de vista distintos. O segundo só fica explícito ao final, mas o primeiro, que está conosco desde o começo do poema, baseia-se na identificação entre o leitor e o “tu” a quem o poema se refere. Nesse caso, o próprio leitor acredita, sinceramente, viver num “mundo caduco, / onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”.

Quando o poema foi publicado no livro Sentimento do mundo, em 1940, essa imagem do “mundo caduco” não era particularmente difícil de aceitar. Havia a Segunda Guerra Mundial, e, desde a Primeira, uma sensação de colapso da civilização. Hoje, essa imagem parece um dos sinais de um grande poema: é tão forte que cada leitor saberá preenchê-la com a caduquice que lhe aprouver, com os exemplos que mais provocam a nostalgia do que nunca foi visto em formas e ações.

Porém, um ponto fundamental, neste momento do poema, é que o leitor acredita que é o mundo mesmo que está caduco. Ele apenas percebe; sua descrição pode ser poética, mas é verdadeira e objetiva. À caduquice do mundo corresponde a lucidez do “tu” e do leitor que se identifica com ele.

E, de fato, uma googlada revela que, ao menos nas internets, essa é a interpretação predominante. O poema é lido como uma acusação certeira.

Na segunda estrofe, os versos vão dando corpo a essa acusação:

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude,
a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-
chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Os heróis são, obviamente, estátuas de bronze; eles não são gente de carne e osso. Estão nas praças e nos livros. O mundo está caduco. Só restam essas carcaças metálicas que recordam valores que ninguém enxerga mais.

Não admira que o “tu” do poema esteja dominado pela acídia, que é a tristeza pela suposta impossibilidade de ter aquilo que mais se quer, aquilo de que mais se precisa. “Tu” querias heroísmo real, exemplos, inspiração, e, francamente, eu também. Dou a mão ao leitor e penso no micropoema de Antonio Machado: “Qué difícil es / cuando todo baja / no bajar también!”. Diante dessa vida sem inspiração, e sem a coragem para o suicídio, os versos seguintes de Drummond fazem todo o sentido:

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo,
os problemas te dispensam de morrer.

O alívio é momentâneo. Os versos logo depois destes, na mesma estrofe, trazem uma nova informação: a impotência que domina o “tu”:

Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe,
pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Isso é relevante. Não é difícil, nem para mim nem para “tu”, crer que o mundo caduco está em perfeita harmonia com a “Grande Máquina” (e como não pensar na “máquina do mundo” que viria onze anos depois, em Claro enigma?); aliás, talvez esta seja a grande causadora daquele, ou aquela que usurpou o lugar daquele.

O observador lúcido, capaz de suportar o amargor de sua visão, agora está sendo posto em seu devido lugar pela Grande Máquina. Está sendo submetido; está sendo humilhado.

Não é preciso citar os versos imediatamente seguintes. Basta advertir que, por ora, é fácil esquecer da sensação de humilhação, porque, assim como na famosa vida real, é difícil lidar com uma humilhação. As “indecifráveis palmeiras” continuam aí, lembrando da humilhação, e é exatamente por isso que parecem “indecifráveis”. A humilhação transfigura as palmeiras. Será que transfigurava também as estátuas de bronze, e o próprio mundo, que parece caduco?

Mas o poema agora vem falar de tempo perdido. Com a literatura. Ao telefone. Parece, outra vez, a vida que se arrasta sem muito sentido. A humilhação pode ser varrida para debaixo do tapete, mas volta com força total na última estrofe, que pode soar como uma acusação, ou como uma indireta confissão resignada:

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro
século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta
distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

No que vamos prestar atenção? No sonho nobre da felicidade coletiva, impossibilitado pela “Grande Máquina”? Naquilo que vem no rescaldo desse sonho nobre abortado — “a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição” — e que, aos humilhados, só resta aceitar?

Ou vamos dar atenção ao “coração orgulhoso” que “não pode, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”?

Certamente não se trata, aqui, de subir no pedestal para condenar o sonho terrorista revelado no fim do poema. Sim, claro, eu sei, a ideia de “dinamitar a ilha de Manhattan” pode ser uma metáfora para o desejo do fim do capitalismo, e eu não sou o carinha do guichê do consulado americano que, hoje, teria negado um visto ao estável funcionário público Carlos Drummond de Andrade. Sim, a ilha de Manhattan pode ser identificada com a “Grande Máquina”. Sim, eu sei.

Mas o ódio impotente, o ressentimento acumulado, trazem à tona aquele segundo ponto de vista de que falei no começo, e questiona todas aquelas visões que antes pareciam tão lúcidas. É o ressentimento que faz com que vejas o mundo caduco, sem exemplos, os heróis como meras estátuas? É o ressentimento que faz com que percas tempo dormindo, lendo, falando ao telefone? É o ressentimento, que preferes não enxergar? Tens pressa de confessar tua derrota porque seu fardo é pesado demais?

Por outro lado, quando Dostoiévski começou a falar de subsolo, ele tinha em mente pessoas que logo começaram a praticar atos terroristas: Demônios, publicado em 1872, refere-se ao caso Netchayev, sendo Netchayev um estudante assassinado pela célula de um grupo ao qual pertenciam Bakunin e Marx (os quais, porém, estavam na Europa e não tiveram nada a ver com o crime).

Creio que vale a pena encerrar aqui, mas me vem a ideia de uma pequena performance. Em vez de uma leitura de “Elegia 1938” como uma visão lúcida de um tempo terrível — e essa leitura foi feita após a eleição de Bolsonaro —, podemos imaginar dois atores, separados por um vidro blindado. Um deles passa pela fina fresta abaixo do vidro seus documentos. Do outro lado do vidro, o funcionário do consulado americano começa a falar, e sua voz é ouvida pelo som metalizado da caixa de som: “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco…”

Durante a curta performance, somos induzidos a pensar na identificação entre o funcionário e o candidato ao visto. Em suas vidas consumistas e vazias. Até que, ao final, o funcionário nega o visto.