A única tarefa que lhe confiaram fora a entrega do carro reformado, com calotas reforçadas, estofos de couro e algumas lâminas cromadas a um dito coronelque, com a família, confundia-se com as origens do vilarejo. Provavelmente alguma autoridade que promovera a si mesma à casta bélica, alastrando seu ranço num desses rincões onde até a peste recusa hospedagem.
“Mas como retorno de lá?”
“Dá-se um jeito, dá-se um jeito.”
“Não há estradas. Só veios de terra, cascalho e carcaças que daqui a pouco a floresta fechará.”
“O coronel é correto. Vai providenciar tudo, fique certo.”
Perdeu as contas dos deslizes, animais, valas e troncos que lhe surgiram ao longo do caminho. Em certo trecho, escapou por pouco de um soterramento, e pelo retrovisor viu o barranco que, em agonia vermelha, parecia esventrar-se. Um carro que mais se parece com um bibelô, um capricho feminino de homem. E a tarde dessas aldeias é de uma crueldade própria; a brasa do sol permanece noite adentro, seja no sangue latente dos carvões ou nas febres sob as peles. Por fim, saiu do veículo e fitou por minutos o entorno. Um garoto com manchas fulvas na pele, em pé sob uma árvore, encarava-o.
“Onde vive o coronel, menino?”
“Vive onde todo mundo sabe.”
“E onde é?”
“Agora não encontra ele, não. É a hora de sangue.”
E acenou, solicitando que o seguisse. Havia, ao sul do vilarejo, uma espécie de arena. Muros rubros, assentos de pedra e um palanque de madeira mais à frente. Junto aos gritos, chegou a seus ouvidos sons de objetos (talvez instrumentos) rústicos que não reconhecia. Provavelmente apetrechos forjados com tiras de latas, tambores de ferro e canos perfurados. Penei para encontrar uma brecha na parede de costas e lombos que sitiavam aquele anfiteatro de capiaus. No centro arenoso, um homem rasgava em faixas as carnes de um lobo, expondo a arquitetura de seus ossos. Um interlúdio para o gemido do animal, seguido dos apupos da multidão e do ruído de seus instrumentos. Aqui e ali poças de sangue fermentavam a areia. O lobo respirava com sofreguidão e, quando tentava erguer-se, uma das patas era quebrada. No palanque, um homem e uma mulher assistiam, inertes, à cena. Aquilo durou mais algumas horas, sendo conduzido com um método de ódio que aparentemente não escandalizava os espectadores. Levantei-me para voltar ao carro. Quando despertei do sono, lá estava novamente o menino.
“O coronel pode te receber agora.”
E apontou para o palanque. Claro, abominei tudo que havia visto, mas nestas situações é preciso sempre ater-se ao tratado. Cumpri-lo e retornar, de um modo ou de outro, à cidade. Subindo as escadas, sentiu cheiro de carne fria, nacarada em gordura, e frutas aciduladas. O coronel acendeu para si um cigarro e colocou o maço e seu isqueiro sobre a mesa.
“Ora, então cadê meu carro?”
“Eu estacionei para o senhor perto do pórtico da cidade.”
“Agradecido. O carro chegou antes do combinado. O senhor bebe algo?”
“Não, agradeço. Se o senhor não se importa, gostaria que conferisse o carro, e em seguida devo partir.”
“Não é possível. Ninguém parte mais hoje.”
Olhei de relance o coronel acariciando os cabelos da mulher bem-vestida a seu lado.
“É regra da cidade não sair enquanto dura o espetáculo. Ainda temos mais algumas cenas. E, de qualquer maneira, daqui a pouco escurece. O senhor não consegue sair daqui durante a noite. Dou ao senhor trinta passos na estrada antes de lhe cair em cima o ódio de algum bicho.”
Obedeci porque em nada me agradava a discussão. Assentei-me e evitei toda comida que me fora oferecida. Trouxeram um cavalo pelas rédeas, estrutura negra sobre os pilares dos cascos. Um homem amarrou o animal no mesmo poste onde sangrara há pouco o lobo e logo escorchava a panóplia escura com azorragues, esgarçando sua couraça. O sangue da vítima, porém, em nada santificava o algoz. Viu-se ali a sístole da dor na besta. Disso seguia toda sorte de sofrimento impingido por meio dos mais obscuros instrumentos. Turqueses, manchis, alfanjes, chuços, torniquetes e outros artefatos certamente forjados por alguma entidade subterrânea e até então ocultos nos seus arsenais. Até que, por fim, o homem abria o crânio do cavalo com dois golpes secos.
Mais uma vez olhou para o coronel, com sua mesa sendo servida durante o espetáculo. A mulher permanecia centrada em sua modéstia, ataviada como mausoléu.
“Por hoje ele foi impedido” — disse o coronel, levantando-se. “Amanhã nos vemos.”
Tipos fidalgos um tanto farsescos se aproximavam do coronel na esperada adulação. Imediatamente atrás, temeroso da aura impermeável que os mais fortes emanam, um jovem de óculos, acanhado, erguia seu pescoço para pinçar sons e palavras. Cheguei-me até ele, pois há nos tímidos, se não docilidade, ao menos resignação à maldade.
“Prazer.”
“Prazer é meu, senhor.”
“Que matadouro foi esse?”
“Uma condenação. Castigo.”
“Essa agonia de animais?”
“Não são somente animais.”
“Não?”
“São condenados.”
“Não entendi.”
“Vê a mulher? A esposa. Um homem arisco, um lenhador, armado e seco como uma carcaça de cigarra, abusou dela. Por dias. Num casebre. Quando o coronel viajava. Depois disso, dez homens armados do casarão caçaram o lenhador. Na caça, fizeram até promessa para os santos escuros. Mandaram um marceneiro criar máquinas, e a oficina dele virou um forno pra cada dia de abuso. Mas o profeta daqui, que sabe uns encantamentos e que fala mais da vida antes do útero do que da vida depois da cova, ensinou umas doutrinas estranhas. Disse que o espírito do vilão, duro como as toras que cortava, teria que se dissolver em muitas vivências. Mas agora, parecendo uma neblina, apossa os animais. A cada dia uma fera, pois sua ruindade se satisfaz apenas com instinto.”
Ri-me.
“Sabe onde posso ficar pela noite?”
“Só mesmo no colo da noite.”
“Não tem pousada por aqui?”
“Quem sai da cidade fica aqui por volta. Limpa o sangue do sangue.”
Descendo uma pequena encosta, por indicação do rapaz, encontrou uma praça cujas sebes e pequenos muros descontínuos davam a impressão de uma bocarra desdentada. Pedras reunidas. Pessoas das redondezas que ouviram sobre o rito, também à espera do dia num quadrado morno e luzidio na noite. Ao largo da praça, engastados no crepúsculo, alguns homens sitiavam uma fogueira, como acólitos de cultos imemoriais. Latas de estanho fervendo sobre o fogo; queixadas triturando grãos. As crianças não se moviam e permaneciam acocoradas ao lado das mães. No centro da praça, fino e teso como um eixo, um velho com o rosto salpicado de fuligem erguia seus braços e gesticulava como um vate de terras calcinadas, prenunciando tempos de peles e crostas chamuscadas pelos archotes de uma divindade demente.
O sol se insinuou, inicialmente, mas pouco depois se pôs austero sobre o propiciatório das montanhas. As nuvens navegavam o céu como encouraçados. Novamente o povo se reunia ao redor dos muros, tangendo os instrumentos cujo estampido marcava o início do rito. Porém, ninguém ali partira; as pessoas da noite, embebidas em sonho, retornavam ao espetáculo. Ele não permaneceria — estava resoluto. Desviou-se das vagas de gente e encaminhou-se para um chavascal ao leste do pequeno coliseu. Transpôs as grades de espinhos e sabugueiros, e sentiu o cheiro de águas correntes. À frente, um rio encrespado como idoso espumando maldições. O jovem de óculos estava ali, acocorado perto da margem próxima, apoiando-se numa vara enquanto olhava a correnteza, com gravidade.
“Venha pra ver uma coisa.”
Ele seguiu o moço que o guiava num arremedo de êxodo, afastando levemente os galhos, estendidos como plumas de aves empalhadas. Subiram um caminho íngreme e arenoso, polvilhado de cascalho. Havia ao redor ossos esculpidos em frágua imemorial e carcaças calcinadas de toda sorte de animais. Necrópole ardente de noite interdita.
“Eles queimam aqui as ossadas.”
Fitou o arcabouço de uma besta, os canos vergados das costelas como uma jaulinha esquecida no deserto. Continuavam rumo ao leste, caminharam mais um pouco, desceram escarpas e subiram penhas. Por fim, viu ao longe um peitoral de concreto entrelaçado de malhas de ferro, acachapado no horizonte.
“A represa. Condenada. Repara lá. Alguns pontos já se arrebentam em jatos. Já foi dito pra gente sair, mas todo mundo permanece. Às vezes ouço, lá do rio, as rochas se esfregando na represa.”
Ele fitou o jovem por algum tempo. E perguntou:
“Por que você não sai, então?”
E ambos permaneceram hirtos, o corpo pesaroso pelo cansaço da andança, os olhos sugados em suas cavidades pelo efeito de uma estranha adstringência. O homem, ao que parece, além de abalado, achava-se confuso, não sabendo se o terrível estrondo ecoara somente nas câmaras e recônditos de seu próprio limbo.