– por Dmítri Ramus
Faz algum tempo, Ana, não contei para ninguém. Você é a primeira que vai ficar sabendo, menina. Não sei se rio, se sinto vergonha, mas a vida é assim, às vezes vem impulso e a gente vai indo, pensando, depois faz uma coisa que não devia. Sente um pouco de culpa e um frio na barriga, que a gente acaba fingindo que não quer, mas, na verdade, é só no que pensa.
Quero um croissant e um carioca, por favor, e você, Ana? Não vai pedir nada? Experimenta o cookie. É muito bom, gostoso, eles esquentam na hora e fica com um cheirinho espalhado pelo ambiente, muito bom. O de frutas vermelhas. Tem? Tem sim. Pede, confia em mim. Voltando…
Com a coisa feita a gente pensa: ah, já tá feita mesmo. Já que tá no inferno… dizem por aí. Eu não acho que eu abracei não, não foram muitas vezes, na verdade foi uma vez só.
Trair, trair não traí, não. Quer dizer, traí, dá para dizer que sim.
Sim. Eu sei, Ana. Quando engravidei o namoro era mais ou menos namoro. Depois ficou mais sério, né? Por conta do bebê…
Também sei disso.
Exatamente… tem o Marcelinho. Eu sei, amiga, eu não sou louca. Você nem ouviu ainda e eu e o pai dele não somos casados, nem nada. Eu fui lá e fiz, mesmo convivendo com o Roberto por conta do Marcelinho fui lá e fiz, se tá lá, né? Abraça, dizem. Aliás essa coisa de abraçar o capeta, nunca entendi, mas escute, que o Marcelinho também tem a ver com isso.
Isso, dois anos e dois meses.
Passa rápido demais. Ele está um hominho. Superinteligente. Mas também puxou ao pai, é todo avoado. Ele nem tomou notícia ou percebeu.
Com quem? Não importa. Podia ter sido outra pessoa. Na verdade não podia, você vai entender. Mas foi uma decepção… Como?
É claro que dei pra ele.
Escuta, eu já estava numa situação que não tinha mais o que fazer. Nem foi bom, nem guardo lembrança, só essa decepção que eu quero explicar.
Quando Lelo nasceu, eu fiquei vistosa. Toda aquela enxurrada de hormônio me deixou com os cabelos lindos, as unhas fortes, a pele suave, os peitos lindos, naturalmente firmes, cheios de leite, uma coisa que só vendo. Eu me olhava no espelho antes de dormir e o pai de Lelinho perguntava o que eu estava fazendo no banheiro.
Ele passou um tempo morando lá em casa, hoje mora a uns vinte minutos de carro.
Menina, eu ficava nua, de pé, a barriga ainda estava voltando. Mas as pernas grossas e aqueles peitos, eu tava apaixonada por mim. Às vezes eu até apertava um pouco e deixava o leite descer, a gotinha passeando do bico do meu peito até onde ela aguentava ir. Depois, às vezes nem limpava, punha a camisola e deitava feliz.
Mas logo nas primeiras semanas percebi uma coisa. No começo era uma sensação de familiaridade, nada demais, agradável e só. Eu ficava amamentando Marcelo e sorrindo. Toda aquela confusão das primeiras semanas é como um nevoeiro, um caos, a gente depois não lembra direito e no esforço de lembrar acaba inventando memória. O que eu sei é: eu gostava. Mas esse gostar foi mudando.
Muito obrigado. Experimenta o cookie, Ana. Não é gostoso?
À medida que os dias ficaram menos confusos eu comecei a entender. A gineco tinha me avisado sobre isso da mamada do filho ajudar na contração do útero e ter outras consequências corporais por conta de um hormônio.
Não lembro se é esse.
Mas é prazeroso, não dá pra dizer que não. Mas não foi isso, isso é normal, todo mundo tem, mas eu comecei a perceber algo diferente, à medida que as semanas passavam eu gostava diferente, como eu falei. Era como se fosse uma saudade. Uma lembrança. Lelinho ia crescendo e mamava bem, mas à medida que ficava maiorzinho o jeito que ele chupava os meus mamilos me lembrou um namorado que tive na época que trabalhei na KPMG Brasil.
Verdade.
Juro.
Uma criança não, um bebê. Ou isso ou ele me mamava… em mim como uma criança de colo. Não sei, pode ter sido tudo um desarranjo dos hormônios da gravidez, mas a lembrança era inevitável. Toda vez que amamentava, vinha a recordação dele.
Toda vez. É.
Sim, essa é a segunda parte da história, mulher.
Eu tinha ele no Instagram. Tinha, não, tenho. Tá lá. Casado.
É. Não tenho orgulho não. Da minha parte Roberto talvez esperasse fidelidade, mas não estamos juntos mesmo, é aquilo: mãe do meu filho e tal, ele não ia achar legal se soubesse que eu paquero…, paquerei, na verdade, um ex.
Não sei nem se ele sabe quem é esse rapaz, faz alguns anos que ficamos. Não vem ao caso.
Vou te dizer. Marcelinho foi crescendo e se desinteressando do peito. Logo que começou a comer uma frutinha amassada passou a mamar diferente. Veio os dentes e pronto, eu ia amamentar e ficava querendo lembrar do ex. Uma loucura.
Sim. Era. Eu ficava por pensar no carinha lá, não por conta do meu filho, oras. Daí, já antes, de vez em quando olhava o perfil dele e curtia uns stories que ele postava. Coisa boba, fiz sem nem pensar. Tava olhando de curiosa um dia e apertei porque aperto mesmo, no impulso. Pra ele deve ter sido uma surpresa, pra ele foi do nada. Comentei uma postagem ou outra.
Marcelinho devia estar com os sete meses para oito, na época que começou a mudar o jeito, por conta dos dentes, é. Comentei. Depois ele comenta uma coisa minha, com Lelinho no colo. Vi que ele corria no Villa-Lobos e de vez em quando eu vou lá com Lelinho, nunca o tinha visto e fui me aproximando pela internet mesmo, as coisas andaram, voltei a trabalhar. Marcelinho foi para a creche e Roberto voltou pra casa dele.
Resumo da história: logo depois que eu volto a trabalhar, a minha empresa é convidada a assumir a auditoria de uma empresa no agro. Ele é da mesma área e não é que a empresa de consultoria dele é exatamente a empresa que está sendo substituída? É uma transição amigável, questão de especialidade de setor… Voltando: papo vai, papo vem, ele um dia passou lá em casa para tomar um café e deixar uns documentos, antes de voltar para a empresa dele.
Sim, pode acreditar. Mas o pior não é isso. Eu fiz uma coisa impagável.
Ai meu Deus… Já comecei, vou dizer. Ele pediu café com leite…
Uhum.
Exatamente, Marcelinho já mamava bem menos, mas tinha leite, ainda.
Tomou e gostou, elogiou e tudo.
Não, foi depois. Nessa época ele devia perceber o interesse, sem dúvida. Mas não teve iniciativa de nada. Passou o tempo. Marcelinho parou de mamar. Daí já falei… fiquei naquela coisa, porque conversávamos semana sim semana não uma coisinha ou outra divertida.
Contei para uma pessoa, talvez apenas para minha psicóloga, para mais ninguém. Acho que ninguém.
Sim, comecei a fazer acompanhamento para aliviar o puerpério. Nada demais, mas ela é tão boa que eu fiquei. Daí falo das coisas da vida, falei dele, mas mais do Marcelinho, que está cada vez mais a cara do pai, inclusive.
Eu não. Olha, tem gente que fala ah, nove meses carregando o filho para ficar com a cara do pai. Eu não ligo. Se eu amasse o Roberto, amaria o meu filho parecer com o homem que amo, mas já que amo apenas meu filho, o pai é que é parecido com ele, pra mim e é como se fosse a melhor parte do pai… Não que eu tenha nada contra ele… Mas então… é complicado e aí teve isso…
Enfim, o final é o que você imagina. Encontrei com ele no parque.
Tinha deixado Lelo na casa do pai, pro final de semana com os primos com a família dele e aproveitei para andar de bicicleta, fui bater no… lá, nem lembrei nem nada o parque é grande e mesmo que eu tivesse provocando de vez em quando uma parte de mim não queria simplesmente propor para ele diretamente assim.
Sei lá por quê. Acho que eu esperava que ele me quisesse. Eu tinha algum receio dele negar, talvez. Ficou aquela coisa implícita, mas que claro ele devia notar, porque era… tava na cara. Nisso o pneu da bicicleta furou e eu me abaixei pra mexer, ele apareceu dizendo meu nome, na hora gelei, mas depois fiquei rindo.
Sim, coincidência, mas ele sempre está lá e eu nunca tinha visto. Ele falou que treinava triatlo e que talvez tivesse uma câmara de ar no carro. Andamos até lá, tava um calor, encostei a bike na roda do carro dele e pedi pra ele ligar o ar e sentei dentro. Ele ficou procurando um pouco na mala, eu saí do banco do carona, olhei para ele e entrei no banco de trás.
Foi. Exatamente.
Nisso ele entra segurando um pacote amarelo, que era a câmara de ar eu falo que não sei trocar o pneu e ele diz que sabe e eu falo para ele trocar depois e tal. Foi isso.
Claro.
Bom, cortando os detalhes. Depois de um beijo eu pedi pra ele chupar meus peitos e foi aí que me decepcionei.
Nada, Ana. Nada era como antes. Eu olhava para ele procurando a lembrança que devia ser ainda fácil de ter com ele do que tinha acontecido meses antes no meio da amamentação, nada ver, entende? Em um momento eu lembrava dele e a memória era prazerosa. No outro eu estava com ele e o que ele fazia não tinha semelhança com o que eu lembrava de fazer para mim, comigo, em mim, tudo isso.
Não sei te dizer.
Desaprendeu. Acostumou-se com a esposa. Quem sabe? Era diferente. A antecipação do que eu ansiava que acontecesse tinha me deixado tremendo, né? Mas na hora, eu fiquei tentando fazer ser parecido com o que eu lembrava… com o fato que me dava saudade e que não conseguia não lembrar.
O quê? Acho que gostava de mim, sim.
Sei lá, ele olhava pra mim e chupava meus peitos como se me amasse.
Era.
Juntos, poucos meses.
Não tem muito o que contar além disso. Ele estava excitado, obviamente e eu ainda estava também, mas nesse momento mais por conta do inusitado de estar dentro do carro do que pelo motivo que me fez dar uma de doida e fazer isso tudo.
Depois saímos, ele trocou o pneu rápido, encheu com uma bomba que tinha por lá e eu voltei para casa pedalando.
Nada, algumas conversas soltas. Não sei se ele contou para outras pessoas.
Se eu o vir de novo? Sei lá, me entristeci, sabe? Parece que eu perdi uma oportunidade de manter uma memória boa e agora fico achando até que eu imaginei que era tão gostoso assim.
Não vai mudar nada, nem evito, nem procuro, mas as conversas são mínimas.
Sim. Tá quase na hora de pegar Lelo no pai.
Acho que sim, posso pagar, depois acertamos.

“A Décima Quinta e Outras Histórias”, Pessoa, 2026.