Elogio da luz — vida e morte de Sergio de Carvalho Pachá, por Gabriel Campos Medeiros

“En el alba dudosa
el padre de mi padre salvó los libros.
Aquí están en la torre donde yazgo,
recordando los días que fueron de otros,
los ajenos y antiguos.”

— Jorge Luis Borges, El guardían de los libros

Faleceu hoje Sergio de Carvalho Pachá.

Poeta e tradutor e latinista e lexicógrafo, conheci-o em andanças virtuais durante os inícios dos meus anos de formação; anos que ainda correm, mas que parecem finalmente desaguar nalguma foz estável, fecunda, benéfica; anos em cujo seio afluente figurou ele como uma fonte: lia-lhe as linhas com a avidez de quem segue uma senda clara aberta na selva escura, aprendia-lhe as lições com a concentração de quem executa uma tarefa nova, sentia-lhe a poesia com a curiosidade de quem folheia um diário póstumo.

Nunca o encontrei pessoalmente, nunca lhe dirigi a palavra. Ele no entanto me falava quase todos os dias.

O Camões que eu começava a amar, amou-o primeiro ele. Assim o Machado, assim o Baudelaire. Tive Pachá como modelo de cultor da melhor literatura. Suas recitações, ouvia-as enternecido. Seus apontamentos, absorvia-os crédulo.

Solitário, nutria ele em seu regime de homme de lettres certa independência fundamental à sanidade, preservando-a contra os achaques padecidos pela inteligência nos meios que se arrogam de exercitá-la sem sucesso; espirituoso, faltava-lhe de todo o ar professoral comum aos tipos que nada tendo a ensinar o dissimulam com impertinência. Não me recordo de uma frase sua que não fosse visceralmente íntima, sinceramente exprimida. Assim sua arte.

O Rio e a lusofonia perdem um artista que mal chegaram a conhecer, tamanha foi a discrição deste, tamanha é a ignorância daqueles. Ultimamente têm ascendido à fictícia cadeira da imortalidade celebridades e intrujões diversos, cobertos da cabeça aos pés de fardões já esvaziados de sentido, na farsa espúria de uma louca academia sem letras, que, por intrigas politiqueiras, houve por bem defenestrar de suas lexicais funções este mesmo Pachá, quando quis ele proteger a ortografia contra as deficientes mãos moluscóides de um imorredouro sindicalista, não sem o insidioso empurrãozinho fraterno de Becharas e Junqueiras.

Compulso agora e outra vez Morte em Lisboa (Rio de Janeiro: Editora Centro Dom Bosco, 2023), sua poesia reunida por Pietro Marchiori, e reencontro aí os já admirados instantes líricos do exímio artífice de língua apátrida que ele foi. E digo apátrida porque poetava e prosava num idioma renegado por Brasil e Portugal e demais províncias, num idioma de poucos falantes e de ainda menos fautores, num idioma elástico às mudanças mas resistente aos séculos, num idioma que, infenso tanto a incorreções atuais quanto a antigualhas impalatáveis, pertence exclusivamente aos maníacos que ousam servir à última flor do Lácio, essa rainha enviuvada, destituída de paço e de lacaios, que já nem um mísero trocado pode dar em pagamento de quem a louva.

Por situar-se além do banal e aquém do espetaculoso, penso Pachá como aquela personagem, tão erudita e altaneira quanto singular e pedestre, do conto Utopía de un hombre que está cansado (do volume de contos El libro de arena), de Borges, quando diz ao visitante:

— Nadie puede leer dos mil libros. En los cuatro siglos que vivo no habré pasado de una media docena. Además no importa leer sino releer. La imprenta, ahora abolida, ha sido uno de los peores males del hombre, ya que tendió a multiplicar hasta el vértigo textos innecesarios.

E também como aquele guardián de los libros (da coleção de poemas Elogio de la sombra) do mesmo Borges, cujos excertos registrei em epígrafe. E Borges com quem Pachá foi ter no período em que, tocado pelos poentes estonteantes do extremo do Ocidente, residiu em Santa Bárbara, Califórnia, de onde trouxe não só sabença literária ou memórias de auditório e gabinete, mas também um empolgado sentimento de juventude, entranhado na canção de Scott McKenzie que embalava seu tempo:

If you’re going to San Francisco
Be sure to wear some flowers in your hair
If you’re going to San Francisco
You’re gonna meet some gentle people there

Do encontro com o maior escritor argentino temos esta fotografia dos dois.

Mais alto, porém, ressoavam em seu coração a madureza das Redondilhas de Babel e Sião, poema de sua absoluta predileção, e a das estâncias d’Os Lusíadas, e a dos Sermões do padre Antônio Vieira. A VÓS SÓ ME QUERO IR, registrou ele na entrada de uma das preciosas páginas de seu Inexistente caderno de memórias, que, publicado diuturnamente no Facebook, precisa aliás ser organizado e ganhar existência editorial. Registrou o clamor camoniano e era como se o bradasse, para em seguida fazer esta confidência docente:

Hoje li e comentei o poema em sala de aula, evitando ao máximo falar de mim e concentrando-me no poeta e em seu texto. Era essencial que eu pusesse ao alcance dos jovens brasileiros que espontaneamente assistem a minhas aulas de literatura o mais alto poema jamais escrito em nossa língua. De posse do texto sábia e abundantemente anotado por Sousa da Silveira que lhes dei, espero que voltem, mais de uma vez, ao longo da vida, a esse sublime canto de exilados da Terra de Glória, sua pátria natural. Poesia não paga contas, bem o sei. Mas, por vezes, mostra a quem se extravia o caminho de casa.

Nunca comprei muito o aforismo de Nelson Rodrigues de que o melhor conselho a ser dado a um jovem é o de envelhecer. E para rebatê-lo, na improvisada arena do meu pensamento, vendi um outro que dizia que

detestável é a juventude, para o velho que não amadureceu

e mais outro:

Para quem dissipa o calor da juventude no turbilhão do mundo, parece aconchegante miragem uma velhice presunçosa.

Coisas minhas. Nisso, Pachá é um anti-Nelson Rodrigues, tão dócil era para com os jovens, tão complacente era para com a sua própria vida anterior. Se há muita dissipação devida ao afobamento juvenil, há também muitos dons que só florescem nesse solo inexperto. O fato é que a poesia de Pachá foi quase toda ela soprada durante a juventude, embora propalada agora. Ele viveu. E vivendo retratou a Graça que desponta mesmo nos contornos soturnos que muita vez a vida vai ganhando, como neste compassivo Copacabana at night (cujo título, como nos segreda o autor, “foi em parte rapinado” ao Paris at night de Prévert):

Copacabana, ao longe, é um renque de jazigos
batidos e esbatidos da onda enevoada
e noturna. De perto, há turistas, mendigos
e crianças na calçada.

Sei bem que é de “gaffeur”, madame, e subversivo
ultrajá-la evocando esta infância alugada
(pois me dizem que há mães que alugaram seus filhos
— as crianças da calçada.)

Sei também não ser vã tanta dor a que assisto
sob o peso da noite, ao meu lado e ignorada:
se a turba é morta e avança, é vivo e dorme o Cristo
nas crianças da calçada.

Pachá congregava em si, sem o menor rasgo de desavergonhada desunidade, duas facetas dialeticamente evangélicas, à primeira vista conflitantes, em essência complementares: o gosto pelo antigo e a ardor pela novidade. Revela-o este soneto (cujo título, Ah, um soneto…, é tomado de empréstimo a um outro igualmente leve do Álvaro de Campos de Fernando Pessoa):

É preciso compor neste barulho
Um soneto e mostrar que sou poeta.
Soneto inglês? Talvez. Que doce arrulho
Nas gargantas da malta que vegeta

Aqui (enjambement). Nenhum engulho
Diante do Salazar? “A nossa meta
É unir toda a Nação num mesmo embrulho
De sonho, tradição e merda seca!”

(Rima toante e normanda.) “A Expansão”
(De pança vem), proclama o D’Albuquerque
(Terríbil não, só Mário), “é uma lição

Eterna e d’Evangelho p’ra quem quer que 
Faça um soneto inglês!” (Mas só no fim, 
Por força do tratado de Metuim.)

Há bossa nos seus versos como há jazz nos de Eliot. É pois dessa conjunção de entrecho circunstancial e atemporalidade temática que nascem as notas bem sustentadas da pauta desse vate de sensibilidade carioca, de casticidade lisboeta. Segundo confessa o próprio, dois nomes constam nos polos que balizaram sua formação poética: Bilac, como sentinela da forma tradicional, e Drummond, como desbravador da forma avançada. Bebendo de ambas as correntes, e ainda de um simbolismo compenetrado e detalhista, soube Pachá extrair de cada uma delas seu sumo aproveitável e, partindo de um parnasianismo tardio mitigado por impulsos modernistas, criou arte perene, limpa tanto das convulsões degeneradas do segundo quanto das mumificações caprichosas do primeiro: esteve no meio-termo, onde se nota o dito simbolismo. Transitou entre épocas; não se prendeu a nenhuma. Usou métrica e foi versilibrista. Incorporou o wit devoto de um José Albano (cf. La vie antérieure, Viagem, Noturno III), assimilou a acuidade mental de um Fernando Pessoa (cf. Noite de sábado, Ah, um soneto…, Le vin du solitaire, Alexandrae), glosou motes de sabor jocoso e prazenteiro de velhas trovas e consagrados motes (cf. Epitáfios do alfaiate, Acalanto, Vesperal, Glosa) e capturou em quadrinhos expressivos as mais drummondianas e casuais ocorrências (cf. Orlando revisitado, Mini-ode à imortalidade, Vitrine, À bout de souffle, Mala e cuia). Empreendeu um concerto comemorativo das grandes realizações estéticas e conceituosas das letras portuguesas, ele que rememorava com ternura as melodias alemãs que tirou do violino. Consolidou-se na emulação da eternidade, fim buscado só pelos homens de interior delicadeza e exterior solidez. Versos de Pachá não são musgos que se agarram à nora d’água da tradição; são ventos revigorantes que a movem.

No tribunal dos grandes medalhões, condenem-me à pena máxima se for crime considerar estes versos de Du temps jadis uns dos mais belos da lírica amorosa nacional, pois tal crime, sem álibi nem circunstâncias atenuantes, aqui mesmo, diante do olho delator do leitor e do esbugalhado da leitora, cometerei:

Tu estavas só
e eram de ouro as praias do poente
e tu estavas só e eu sozinho
junto ao poente.
Aí então eu te estreitei nos braços
e eram de ouro as praias do poente
e o glauco mar na areia se espraiava
tepidamente.
E eu disse que te amava
e eram de ouro as praias do poente
e eu disse que te amava até que o ocaso
fosse o nascente.
E tu não estavas só nem eu sozinho
junto ao poente.

Sempre considerei exemplar seu estro desprendido, que, elevado por sua renovadora técnica alusiva, produzia versos de verniz classicizante mas no fundo dotados de comoções próprias de um enfant terrible, como nesta estrofe esparsa:

Rebelo-me e reclino-me. Ensarilho
Ervas lúridas e algas. Sou adaga,
Gume de expectativa e escuro brilho
Incrustado nos ossos de uma saga.
Nau de quem fui, demando, exílio e porto,
Alcíones de sal. O mar é morto.

No parnaso pessoal de Pachá, sentavam-se, à mesma mesa, o Manuel Bandeira mais pândego — de quem corrigiu a mocidade angélica atribuída a Mozart em prol da de Schubert, e a partir de quem protagonizou novo Momento num café e ainda um segundo — e o Leopardi mais enfermiço e desolado — de quem traduziu os célebres L’infinito e A se stesso, e deste último poema extraiu um autoral seu —, sobrando lugar ainda para aí achegar-se a alma gitana de um Lorca, como o demonstra esta pungente balada intitulada Maioridade:

Tenho medo, tenho medo,
vinte e sete anos de medo.
Medo da vida que morro
e da ‘muerte construída’,
dos cavalos que galopam,
que galopam sobre os limbos,
e do silêncio ululante
nos espaços, infinito.
Tenho medo de Pascal,
de Platão e de Agostinho,
e das certezas que pregam:
serão certezas? Mentiras
houve-as tantas, vida afora,
já não sei se vivo ou minto.
Mas a vida não é desvio
E a morte o vero caminho?
‘La vida es sueño’? Ou é sono?
E a morte? Será vigília,
lúcida vela, verdade,
ou, talvez, dormir, ‘to sleep,
no more, perchance to dream’,
será da morte o sigilo?
Não sei, não sei. Entrementes
anoitece de mansinho.
Tenho medo, tenho medo,
vinte e sete anos de medo.
Onde andará Jesus Cristo?

Como se vê, a breve obra poética de Pachá é uma homenagem aos êxitos intelectuais da civilização. Diante dessa aurora e desse crepúsculo, coloca-se ele como um pacato observador, satisfeito por participar, no seu canto, dessa seqüência monumental de feitos, testemunhando-os, recolhendo-os no coração e enfim decantando-os com voz própria. Não há, nessa lavra, um só momento de excesso sentimentalista, nem de frieza cerebrina; porque nela tudo é propositado, tudo tem cabimento; porque nela nada é fingido, nada é forçado; porque nela há um relato de peregrinação franco e variado, há sofrimento e consolação, há dúvida e fé, há procura e achamento. Ele viveu. E tomou o caminho de retorno. Sua poesia é um passeio por sombras daqui e do além, mas é um elogio da luz humana e da divina, como neste sublime par de versos que fecha seu poema Morte em Lisboa e é a síntese de um espírito que se deixou atingir pela flecha do cristianismo para acatar a vida que há na morte:

Morrer: Portas do Sol em plena aurora,
agora.

Regozijemo-nos disso. Não findou em penumbra o

sucumbido enfim Sergio Pachá

como o expressa em seu divertido Epitáfio irônico e ligeiramente sentimental, composto há pouco mais de dois anos… E depois de um demorado cortejo hospitalar de trevas assediantes, findou em luz o nosso poeta; arrebanhou-se junto à Igreja do Cristo; e, com Nelson Cavaquinho, talvez tenha entoado sobre essa hora extrema:

quero preces e nada mais

e se não lhe dei eu

o carinho, a mão amiga

seja portanto este precário necrológio o ensejo, leitor igual e leitora dessemelhante, de proferir em favor dele tais preces. Findou em luz. Regozijemo-nos disso.